Título: De olho nos lucros do interior do Brasil
Autor: Neila Baldi
Fonte: Jornal do Brasil, 31/01/2005, economia, p. A19

De olho nos lucros do interior do Brasil SÃO PAULO - Mais de 500 anos depois, o Brasil está sendo redescoberto por estrangeiros. Empresários de diversas nacionalidades têm desembarcado para explorar terras. Estima-se que cerca de 350 agricultores americanos já compraram propriedades no Brasil. Até 2010, os estrangeiros terão investido, no mínimo, US$ 480 milhões na produção e beneficiamento de produtos agrícolas.

A maior parte deles busca novas fronteiras agrícolas, que vão desde o Mato Grosso até o Norte do país, onde há terra barata em abundância. Mas há também aqueles que procuram investir em setores que já estão estruturados, com boas perspectivas de exportações, como o sucroalcooleiro. Neste caso, a aplicação dos recursos se dá em áreas tradicionais do Centro-Sul. Apenas este segmento espera receber US$ 24 bilhões em uma década - incluindo recursos nacionais.

Um exemplo dessa pujança é Querência (MT) onde 10% da área cultivada com soja no município está nas mãos de americanos, holandeses, paraguaios e russos que plantam ainda arroz, milho, algodão e têm áreas de pastagem. Há quatro anos, quando o agrônomo José Emílio Accioly de Amorim chegou ao município, um hectare de terra valia R$ 130. Hoje, custa R$ 5 mil.

- Somos o município em que mais se valorizou a área agrícola no estado - diz Erivaldo da Cunha Santos, ex-secretário de Agricultura de Querência.

O município tem 130 mil hectares cultivados, de um total de 500 mil agricultáveis. Segundo Santos, além da abundância de área, a produtividade é alta - 55 sacas de soja por hectare para uma média nacional de 46 - e existem armazéns de multinacionais de esmagamento nas proximidades. No entanto, de acordo com Amorim, a supervalorização das terras está fazendo com que os estrangeiros busquem novas fronteiras. Dois se seus clientes têm áreas também em Roraima e Tocantins.

Na Cooperativa Grão Norte, de Roraima, dois associados são estrangeiros.

- As terras baratas, a produção na entressafra brasileira e a alta produtividade atraíram investimentos - diz José Dirceu Vinhal, presidente da cooperativa. Entre eles, está o argentino Néstor Ariel Perez, que tem 5 mil hectares para a produção de grãos e frutas na região. Ele pretende investir pelo menos US$ 5,5 milhões até 2010 no cultivo e esmagamento de soja.

- A posição geográfica de Roraima auxilia na exportação - diz Perez. Ele acredita que, em até três anos, problemas de infra-estrutura da região serão sanados. - Há dois anos, não se conseguia comprar adubos aqui e hoje isso já não é dificuldade - afirma. Além de Perez, acredita-se que outros 15 mil hectares na região de Boa Vista estejam nas mãos de estrangeiros.

Apenas a consultoria Amerazil pretende atrair para o país US$ 475 milhões até 2010. Deste total, US$ 20 milhões já seriam aplicados neste ano, no esmagamento de soja em São Paulo e Mato Grosso.

- Nos Estados Unidos não há mais área para crescer e aqui, falta capital - justifica o americano Daniel Mahoney, diretor da consultoria. Em março, a empresa vai trazer uma comitiva de 15 empresários interessados em investir no país. Segundo ele, são promissores os estados de Mato Grosso, Piauí e Roraima.