Título: Desesperançoso passo para trás
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 15/12/2008, Opinião, p. A8
A falta de avanços na Conferência da Organização das Nações Unidas sobre Mudança Climática na cidade polonesa de Poznan representa um amargo retrocesso. A reunião, encerrada na sexta-feira, apresentou uma Europa dividida quanto ao tema e evidenciou a hesitação dos Estados Unidos, à espera das diretrizes a serem traçadas pelo presidente eleito Barack Obama. Coube aos países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, um papel de destaque na condução dos debates e na proposição de soluções ¿ mas sem consenso, o processo de contenção da poluição mundial permanece parado, enquanto o planeta Terra segue vítima de agressões ambientais, muitas delas irreversíveis.
O encontro marcou a metade do caminho traçado em 2007 em Bali, na Indonésia, e tentava fazer com que os países superassem os impasses que ainda atravancam as negociações por um novo acordo sobre emissões de gás carbônico, o maior causador do aquecimento global. Na cúpula do ano passado, 190 países aprovaram o chamado Mapa do Caminho, que traça uma rota de negociações até 2009, quando um grande encontro da ONU sobre mudanças climáticas acontece em Copenhague, na Dinamarca. Ali, sim, deverá ser concluído o projeto para um substituto ao Protocolo de Kyoto (o atual acordo internacional sobre emissões de gases do efeito estufa, que vence em 2012 mas cujas metas jamais foram seguidas à risca). Por isso, acreditava-se que os 12 dias de deliberações em Poznan seriam um degrau acima na escalada rumo a um mundo menos degradado.
Nos últimos meses, contudo, governantes de países europeus como a Alemanha, França e os próprios anfitriões poloneses já vinham sinalizando que não estariam dispostos a manter as pressões por metas ambiciosas de redução de emissões, entre outros avanços. De fato, a chanceler alemã Angela Merkel, presente ao encontro, conseguiu o que queria: a garantia de que as indústrias alemãs ¿ temerosas em perder mercado em meio à crise econômica mundial ¿ terão um alívio. Os países do leste europeu, liderados pela Polônia, obtiveram sinal verde para continuar usando o carvão como matriz energética. E a meta de redução de gases estufa do continente ficou em 20% em 2020, sobre os índices de 1990. Já os EUA acenaram com a proposta de diminuir suas emissões aos níveis de 1990 até 2020, o que na prática significaria uma tímida redução de cerca de 16%.
Diante da indisfarçável estagnação, o Plano Nacional sobre Mudança do Clima, apresentado pelo Brasil, angariou simpatias. O projeto, divulgado em Brasília no início do mês, trata das ações do governo para combater os impactos ambientais e socioeconômicos das alterações climáticas globais. O pacote inclui metas para a redução da emissão de gases estufa e para a queda gradativa dos índices de desmatamento da Amazônia até 2017. O plano mereceu elogios do ex-vice-presidente americano e prêmio Nobel da Paz Al Gore, que o citou em seu discurso em Poznan.
"O Brasil mudou de posição", comentou o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. "Ele já estava avançando em matéria de biocombustível, hidreletricidade, mas estava com uma posição muito defensiva e era muito criticado. Agora resolveu mostrar um plano, mostrar metas, e isso foi reconhecido internacionalmente", sintetizou. Apesar do tom otimista do ministro, resta pouco tempo ¿ e ainda muitas arestas ¿ até o prazo final em Copenhague. O fôlego do planeta está se acabando.