O Globo, n.31998 , 16/03/2021. País, p.2

 

Maior disposição em tomar vacina é boa notícia, só faltam as doses

16/03/2021

 

 

O medo legítimo de contrair Covid-19 parece ter vencido o medo infundado da vacina, que chegou a ser patrocinado por ninguém menos que o presidente da República, Jair Bolsonaro. Uma pesquisa da empresa Ipsos e do Fórum Econômico Mundial feita no mês passado em 15 países revelou que os brasileiros são os mais ávidos pela vacinação, como mostrou reportagem do “Jornal Nacional”. Segundo o levantamento, no Brasil 89% se disseram dispostos a vacinar-se, ante 87% no Reino Unido, 85% na Itália e 82% na Espanha e na China.

Boa notícia também é que o interesse pela vacina cresceu — em dezembro do ano passado, quando a empresa fez sondagem semelhante, o percentual de brasileiros que se diziam dispostos a estender o braço à agulha caíra a apenas 65%. Evidentemente, de lá para cá o cenário mudou. As aglomerações de fim de ano e a circulação de novas variantes mais contagiosas do Sars-CoV-2 fizeram explodir o numero de casos de Covid-19 em todas as regiões do país e levaram o sistema de saúde ao colapso. O Brasil vive hoje o pior momento em pouco mais de um ano de pandemia. Ao mesmo tempo, o sucesso da vacinação noutros países pode ter contribuído para a maior disposição do brasileiro em vacinar-se.

Registre-se que ela aumentou mesmo na falta de uma campanha consistente de apoio à imunização por parte do governo federal. As que existem são iniciativas da sociedade, como a do consórcio de veículos de imprensa ou as de governos estaduais.

De nada adianta a disposição do cidadão, porém, se não há vacinas disponíveis para todos. Faz amanhã dois meses que o país começou a campanha. Não atingimos ainda 5% de imunizados, um vexame. Não é que não tenhamos capacidade para ir além. Na campanha contra a gripe, chegamos a vacinar um milhão de pessoas por dia. O que falta são estoques, pela absoluta incapacidade do governo de se planejar, como fizeram outros países. Cidades têm interrompido a vacinação devido à escassez de doses.

Uma projeção do painel MonitoraCovid, da Fiocruz, mostrou que, mantido o malemolente ritmo atual, só conseguiremos vacinar todos os brasileiros em 995 dias, ou mais de dois anos e meio. Seria catastrófico, considerando o agravamento da doença, a quantidade de variantes em circulação e a escalada do número de mortes, que já beira 280 mil. Para imunizar a população até o fim deste ano, seria preciso triplicar os números atuais.

Claro que a situação pode mudar — ontem, ainda ministro da Saúde, Eduardo Pazuello anunciou a compra de 100 milhões de doses da Pfizer/BioNTech e 38 milhões da Janssen. Há sinais de que o governo despertou, ainda que tarde, para a importância de assegurar vacinas a todos — o maior deles é a troca do próprio Pazuello, responsável por não termos antecipado a tempo o número necessário de doses. Mesmo assim, a solução para melhorar os índices de vacinação ainda parece distante e será sem dúvida o principal desafio de seu sucessor.