Título: Todos estão contra os juros
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Fonte: Jornal do Brasil, 09/01/2009, Editorial, p. A8

A reunião entre representantes de associações empresariais, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, escancarou, mesmo com contornos civilizados, o estado de insatisfação com a política de juros praticada no país. Segundo os relatos extraídos do encontro, realizado para a criação do grupo de acompanhamento da crise, Meirelles e o representante da Febraban, Marcio Cypriano, opuseram-se no início da conversa. Cypriano cobrou a antecipação da reunião do Copom para reduzir a Selic, atendendo à expectativa do mercado de queda de pelo menos 0,5 ponto percentual. Meirelles rebateu de pronto à provocação do interlocutor. Cobrou das instituições privadas a redução do spread ­ a diferença entre a taxa de captação e a cobrada pelos bancos nos empréstimos ­ que, segundo argumenta, descolou-se da trajetória dos juros futuros. A cobrança mútua revela-se bem-vinda por um motivo simples: ambos, infelizmente, têm razão. E o Brasil paga, e caro, por essa certeza. Desde setembro, por exemplo, a Selic está estacionada em 13,75%, enquanto os spreads bancários aumentaram significativamente: segundo números do BC, só em outubro cresceram 1,96 ponto acima do registrado no mês anterior. Normalmente, lembrou Henrique Meirelles, os spreads acompanham a trajetória das taxas de juros de longo prazo. Agora, pela primeira vez, estão descolados: o juro de longo prazo caiu para o menor nível da História, mas mesmo assim os spreads subiram. Em outras palavras, os bancos poderiam fazer sua parte para aquilo que se deseja hoje: o revigoramento do crédito e o arrefecimento dos juros. A crítica de Meirelles, contudo, não o livra de ataques mais ferozes e igualmente justificáveis, vindos do setor privado. Na própria reunião, o representante das indústrias de máquinas e equipamentos, Luiz Aubert Neto, chegou a perguntar-lhe por que as taxas de juros do Brasil são as mais altas do mundo. O presidente do BC atribuiu a posição brasileira, de privilegiado às avessas, ao alto nível da demanda por mercadorias e aos índices de inflação próximos ao teto da meta fixada pelo Copom. Meias palavras. Os dados da desaceleração informam o tamanho da sensatez do BC. As estatísticas sobre a produção industrial, divulgadas pelo IBGE, reforçam a avaliação de que, na última reunião do Copom, no início de dezembro, ignoraram-se as evidências de que o risco dominante na economia não era a pressão inflacionária, mas o seu inverso. A política monetária demorou a se adaptar às novas circunstâncias. O IBGE informou que, em novembro, o setor industrial sofreu a maior queda no nível de produção desde maio de 1995 ­ quase dois terços de 755 produtos mostram diminuição das quantidades produzidas, algo inédito desde o início da série, em janeiro de 2003. Mas o BC enxergava o fantasma da pressão da demanda. O pessimismo com os prognósticos de contaminação da crise contagiou parte da economia. O risco, nesses casos, é o abalo de confiança espalhar-se como rastilho de pólvora ­ do mercado acionário ao engessamento do crédito, atingido a economia real. E o BC deu sua formidável contribuição para tanto. Como um cheerleader, um coordenador de expectativas, ajudou a ampliar o exército de pessimistas e desconfiados. Agora, os porta-vozes do mercado prevêem a queda dos juros ­ previsão tão unânime que justificou a cobrança da Febraban. Antes tarde do que nunca. Mas não será demais lembrar o tamanho do estrago causado.