O Globo, n.32003 , 21/03/2021. Sociedade, p.19
UPA de São Paulo fica sem oxigênio para pacientes com Covid-19
Gustavo Schmitt
21/03/2021
Escassez inédita na capital levou a dez transferências e prefeitura pediu cilindros à Fiesp; fornecedor nega falta de insumo
Pela primeira vez desde o início da pandemia, a prefeitura de São Paulo registrou falta de oxigênio em uma unidade de Saúde. Dez pacientes que estavam internados na UPA Ermelino Matarazzo, na Zona Leste da capital paulista, tiveram que ser transferidos na noite de anteontem. Segundo o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, o problema ocorreu devido à falta de fornecimento pela White Martins, principal produtora do insumo no país. A empresa nega que tenha havido problema no abastecimento de oxigênio.
Embora a prefeitura diga que não há, no momento, uma crise de desabastecimento na cidade, o problema ocorrido anteontem lança um alerta sobre o que pode acontecer em um cenário em que a taxa de ocupação das UTIs ultrapassa 90% e postos de atendimento básico estão sendo usados para internar pacientes que precisam de intubação, como ocorreu na unidade da Zona Leste. Em nota, a White Martins informou que tem alertado sobre “riscos envolvidos na transformação de unidades de pronto atendimento em unidades de internação para pacientes com Covid-19 sem um planejamento adequado”.
De acordo com a empresa, em geral, as UPAs não possuem redes internas de distribuição de oxigênio com a dimensão adequada para expansão do consumo, o que prejudica o fornecimento de gás para ventiladores e inaladores, por exemplo. Ainda segundo a empresa, “essas condições interferem na pressão necessária para alimentar os ventiladores utilizados em pacientes críticos, o que leva à percepção equivocada de que há falta de gás”.
Só na UPA de Ermelino Matarazzo, o consumo de oxigênio subiu 16 vezes, segundo a White Martins, passando de 89 metros cúbicos por dia, em dezembro de 2020, para 1.453 metros cúbicos por dia na quintafeira, 18 de março.
Segundo Aparecido, a demanda pelo gás em toda a rede municipal mais que triplicou de janeiro para março — de 55 mil metros cúbicos diários para 178 mil. Para tentar resolver isso, o município pediu ajuda à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e estuda baixar um decreto para regular a distribuição de oxigênio em São Paulo.
— Seria uma medida emergencial para que seja priorizado o abastecimento de oxigênio nos hospitais públicos, já que a empresa cometeu uma falha importante e o município não pode correr esse risco — disse o secretário ao GLOBO. Com a demanda de oxigênio pressionada pela nova onda da pandemia, Aparecido pediu 250 cilindros emprestados para a Fiesp.
— A indústria siderúrgica, mecânica e estamparia contam com muitos cilindros de oxigênio. A intenção é ter uma reserva para não correr o risco de faltar. Daqui dois meses, quando a situação melhorar, devolveremos os cilindros. Em condições normais, a gente abastecia as UPAs de oxigênio uma vez por semana. Agora, são três vezes ao dia por causa do aumento do número de pacientes que chegam com Covid-19 —afirmou Aparecido.
EMPRESA NEGA FALTA DE 0
Em nota enviada ao GLOBO, a White Martins afirmou que notificou a UPA de Ermelino Matarazzo para informar previamente qualquer aumento de consumo de oxigênio, visando “avaliar e adequar seus equipamentos instalados (tanque e cilindros) e malha logística” e que, até o momento, “não recebeu nenhum retorno desta unidade sobre a previsão de demanda ou necessidades de acréscimo no consumo de oxigênio”.
“A White Martins informa que não faltou oxigênio para a UPA Ermelino Matarazzo, mesmo com o consumo do produto na unidade tendo aumentado de forma exponencial (16 vezes)”, diz a nota. “O sistema de abastecimento de oxigênio na unidade funcionou para que o produto continuasse sendo fornecido ininterruptamente, conforme as normas vigentes (...) No dia 19 de março de 2021, a UPA consumiu todo o produto do tanque de oxigênio (suprimento primário) e o sistema iniciou automaticamente o uso da central reserva de cilindros (suprimento secundário). (...) Durante o uso do suprimento secundário, o suprimento primário (tanque) foi abastecido, não ocorrendo falta de produto.”
Ainda de acordo com o secretário municipal, nesta semana o Hospital Municipal Doutor Ignácio de Proença Gouveia, conhecido como João 23, na Mooca, também na Zona Leste, chegou a ficar com uma reserva de apenas uma hora de oxigênio até a empresa fazer o abastecimento.
ALERTA NACIONAL
Levantamento de Frente Nacional de Prefeitos (FNP) realizado entre quinta e sextafeira indica que o oxigênio para pacientes de Covid está prestes a acabar em pelo menos 76 municípios de 15 estados brasileiros.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) enviou ao Ministério da Saúde anteontem ofício para alertar que Rondônia pode sofrer desabastecimento de oxigênio a partir de quarta-feira. O órgão pede que a pasta tome medidas para lidar com a crise. De acordo com o oficio, o Acre também sofre com o aumento da demanda por cilindros de oxigênio.