Valor Econômico, n. 5197, v.21, 01/03/2021.Política, p.A10

 

 

Polarização abala Campanha da Fraternidade

 

Arcebispos e grupos ultraconservadores boicotam edição por discutir supostos temas “revolucionários”

Por Cristian Klein — Do Rio

 

 

Fruto da polarização política do país, a Campanha da Fraternidade deste ano está dividindo o meio religioso num acirramento entre as alas progressistas e conservadoras, diante do boicote que arcebispos e grupos mais radicais passaram a promover em dioceses, outdoors e redes sociais. A contracampanha prega a não utilização dos textos elaborados para os fiéis e a recusa para doações em dinheiro na tradicional coleta do Domingo de Ramos, que cairá em 28 de março. Grupos ultraconservadores, como o Centro Dom Bosco, de onde se elegeu a deputada federal bolsonarista Chris Tonietto (PSL-RJ), afirmam que a mobilização religiosa neste ano foi “capturada” e que “temas revolucionários” - como feminicídio, racismo, violência contra LGBTQI+ - ganharam projeção no lugar de conteúdos católicos.

 

Ironicamente, o que era para ser um momento de comunhão durante a quaresma é motivo de discórdia e pode chegar à judicialização. Tudo muito distante do tema - “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” - e do lema - “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” - propostos para este ano.

 

A Campanha da Fraternidade começou a ser realizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 1964, mas desde 2000 há edições ecumênicas quinquenais, como a deste ano, quando a organização fica a cargo do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic). Além da Igreja Católica e da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, a associação é formada por denominações do protestantismo tradicional, como as igrejas Episcopal Anglicana do Brasil, Presbiteriana Unida, Aliança de Batistas do Brasil e Evangélica de Confissão Luterana.

 

Pastora luterana e secretária-geral do Conic, Romi Bencke é o principal alvo das agressões por ter incorporado a “alma” da comissão da campanha. “Eles dizem que elaborei o texto-base sozinha, o que é uma inverdade, e me pegaram como centro dos ataques”, afirma Romi, que analisa com advogados se levará o caso à Justiça. Em sua opinião, os ataques têm fundo político já que, em janeiro, ela foi uma das porta-vozes do Conic a protocolar pedido de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, tendo como justificativa o descaso do governo com a pandemia.

 

Em alguns municípios, como Itabira (MG) e Londrina (PR), grupos ultraconservadores espalharam outdoors contrários à tradicional mobilização da quaresma. Na cidade paranaense, o movimento Brasil Católico estampou a mensagem: “Atenção católicos - Campanha da Fraternidade 2021 com infiltração de abortistas e cumplicidade da CNBB - Tirem os comunistas do altar! Não doe dinheiro em 28/março”. Dos recursos doados 40% são destinados ao Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), administrado pela CNBB, e 60% ao Fundo Diocesano de Solidariedade (FDS), gerido pelas dioceses, com o objetivo de financiar projetos sociais e caridade.

 

Em 2019, a parte que cabe à CNBB foi de R$ 3.814.139,81. Em 2020, por causa da pandemia da covid-19, não ocorreu arrecadação. Com o boicote às doações e o quadro de agravamento da pandemia, a CNBB não arrisca nenhuma previsão para 2021.

 

Secretário-geral da CNBB, dom Joel Portella Amado afirma que sua preocupação maior é com os efeitos da pandemia, do “lockdown” adotado em algumas cidades e do desemprego na vida das pessoas, o que aumenta a urgência de doações aos que mais necessitam. “O estímulo à não colaboração é um ato antievangélico na medida em que estimula a prática do egoísmo, da não caridade. Isso é muito grave, pois, em meio a polarizações, são os mais pobres que acabam, como costumamos dizer, pagando a conta ou, se desejar, não tendo com o que pagar suas contas”, critica o bispo auxiliar do Rio de Janeiro.

 

Prejuízos organizacionais já podem ser sentidos. Um seminário de formação de lideranças que contaria com quase 300 pessoas foi cancelado no Paraná, relata Romi. Grupos comunitários da regional do Conic na Bahia também foram desmobilizados.

 

Sobre ser defensora do aborto, a pastora gaúcha diz que se orienta pelo posicionamento de sua igreja, segundo a qual se trata de uma questão de saúde pública. “Como no Brasil há separação entre igreja e Estado, logo não cabe à igreja interferir numa questão relacionada à saúde pública”, afirma Romi, lembrando que atualmente a lei já prevê os casos em que o aborto é permitido. “Temos que fazer um debate sério na sociedade e depois coletivamente decidir se somos a favor ou contra e como se dá a implementação da política pública. Uma decisão complexa não pode ser tipo um jogo entre Grêmio e Internacional. Nenhum assunto é proibido”, afirma. Para integrantes da ala mais conservadora da Igreja Católica, porém, há temas e termos proibidos ou malvistos, como as menções do texto-base a racismo, necropolítica, “abordagens policiais violentas” e “derretimento das geleiras” - considerados “absurdidades”.

 

Em comentários a vídeos publicados pelo Centro Dom Bosco, seguidores pintam a imagem de Romi como algo demoníaco. Uma fala da pastora sobre “os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres” é reprisada em tom de escândalo. Em vez de doações, a sugestão é que no dia da coleta os fiéis insiram nos envelopes a oração de exorcismo de São Bento. Numa das mensagens, a deputada federal bolsonarista Bia Kicis (PSL-DF) chancela a contracampanha: “Gravíssimo!”.

 

A abertura das igrejas em meio à pandemia - bandeira de líderes religiosos que se alinharam a Bolsonaro - é defendida em contraposição ao texto-base que prega o distanciamento social com evidências da ciência para evitar a propagação do vírus. “A Campanha da Fraternidade de 2021 pretende ser algo como o Psol ou o Partido Democrata infiltrados dentro da Igreja Católica”, afirma num dos vídeos Álvaro Mendes, vice-presidente do Centro Dom Bosco.

 

 

 

 

 

 

 

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“Atitudes fanáticas e radicais são vistas como solução”

 

Para dom Joel, clima de polarização da Campanha da Fraternidade é reflexo de um fenômeno mundial

Por Cristian Klein — Do Rio

 

 

Secretário-geral da CNBB, que está no topo da hierarquia da Igreja Católica no Brasil, dom Joel Portella Amado, vê o clima de polarização da Campanha da Fraternidade como reflexo de um fenômeno mundial, mas nem por isso é complacente com os excessos dos grupos ultraconservadores. Dom Joel afirma que a Igreja não tem ingerência alguma - a não ser religiosa, com a orientação por padres ou leigos - sobre os grupos de inspiração católica; e que, por serem associações civis, não há sanções previstas no ordenamento canônico. Em sua opinião, o “único modo de enfrentar esse tipo de atitude é o diálogo e, no caso das redes sociais, não compartilhar, não seguir etc”. Pondera que, numa sociedade democrática, todos têm o direito de se manifestar, mas avisa: “Devem, contudo, arcar com as consequências das manifestações, que acontecem, quando é o caso, perante a justiça civil ou criminal, por serem instituições apenas civis”.

 

O dirigente da CNBB reconhece que a Campanha da Fraternidade, por tratar de “temas que não se enquadram em algumas agendas”, acabou gerando reações, “pois as expectativas são várias diante das realidades da vida”. “São reações que fazem parte da história da Campanha. Nosso tempo, porém, tem agravado a dificuldade em conviver com as diferenças. As pessoas podem acreditar no que quiserem. Podem pensar de modo diferente. Só não podemos transformar as diferenças em embates, com atitudes belicosas e agressivas”, diz.

 

 

Dom Joel lembra que, apesar da celeuma, o objetivo da Campanha da Fraternidade Ecumênica foi o de fazer um convite para “que se inicie ou se fortaleça exatamente o diálogo”. E que as divergências podem estar mais na forma do que no conteúdo. “Pode ser que o modo de descrever uma realidade não seja o mesmo com o qual eu e você o faríamos. Temos, no entanto, que ser maduros o suficiente para transcender as formas de manifestação, compreender os conteúdos. Por isso, incomoda tanto quando, em lugar do diálogo, surge de imediato a acusação. Venha de onde vier, a acusação, sem a disposição para o diálogo, não gera paz”, afirma.

 

O secretário-geral da CNBB entende que “estamos vivendo um momento bastante complexo” e que o mundo todo passa por “uma espécie de rearrumação”. Nesses momentos históricos, diz, a tendência é a da polarização, “pois cada pessoa ou grupo acaba se agarrando aos seus pontos de vista como forma de sobrevivência sociocultural”. É o que o bispo auxiliar do Rio chama de “mudança de época”, períodos históricos em que os alicerces socioculturais desaparecem. “Como reação, atitudes fundamentalistas, fanáticas, radicais, combativas passam a ser vistas como a solução para os problemas”, analisa.

 

Questionado se o bolsonarismo turbinou a polarização, dom Joel afirma que “figuras de destaque, sejam na política, na religião, na mídia ou em outro ambiente com incidência social ampla, acabam se tornando catalisadoras de atitudes. Como também estamos num tempo sem muitas referências, essas figuras assumem os vazios”.

 

Quanto ao boicote à campanha, anunciado pelos arcebispos militar e de Juiz de Fora, dom Joel diz que a CNBB respeita a decisão, “na medida em que um bispo tem autonomia sobre sua diocese”. No Brasil, há 278 circunscrições, entre arquidioceses, dioceses e outras. “Somos 317 bispos na ativa. É compreensível, portanto, que existam perspectivas diferentes, ainda mais em assuntos não especificamente religiosos, como acontece na Campanha da Fraternidade.”

 

 

 

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“Ascensão de Bolsonaro acirrou contradições”

 

Para especialista, polarização não dá conta da posição moderada da maioria dos bispos

Por Cristian Klein — Do Rio

 

 

 

Como qualquer segmento da sociedade, a comunidade cristã é atravessada pelas divisões ideológicas e políticas do país, vide o que ocorreu durante o auge da polarização, com ditadura militar e Teologia da Libertação - fenômeno que vem sendo retomado nos últimos anos. É o que afirma o coordenador do núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, Francisco Borba. “A ascensão do bolsonarismo acirrou as contradições”, diz o sociólogo.

 

Em sua opinião, o Conic, formado majoritariamente por igrejas protestantes e incumbido de redigir o texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano, “sentiu que tinha que tomar uma posição” de modo a se diferenciar dos evangélicos pentecostais, que se tornaram forte base social de Jair Bolsonaro.

 

 

Borba faz uma analogia e diz que a CNBB - historicamente de “tendência progressista em temas sociais, mas nem tanto no campo dos costumes e da moral sexual” - está neste ano na posição de alguém que dá uma festa em sua casa mas não tem como controlar o comportamento e tudo o que os convidados - no caso o Conic - vão falar.

 

O uso de expressões muito típicas do jargão progressista, como LGBTQI+ e “direitos reprodutivos das mulheres”, causou má impressão, afirma, e levou os ultraconservadores a realizar um pente-fino no texto-base para assustar os católicos moderados. “É um progressismo agressivo, num momento em que a Igreja estava num processo de moderação, desde os escândalos do PT no governo federal”, afirma.

 

 

O especialista diz que a polarização não dá conta da posição moderada da maioria dos bispos, assim como dos dois cardeais mais importantes: dom Odilo Scherer, de São Paulo, e dom Orani Tempesta, do Rio.

 

Da ala conservadora, os arcebispos militar do Brasil, dom Fernando Guimarães, e de Juiz de Fora, dom Gil Antônio Moreira, anunciaram em comunicados o boicote à Campanha. Procurado pelo Valor, dom Gil preferiu não se pronunciar, e dom Fernando não havia respondido às perguntas até o fechamento desta reportagem.

 

Para o bispo da diocese de Camaçari (BA), dom João Carlos Petrini, o problema é que o texto-base, pela primeira vez, foi redigido com “todo um linguajar que criou um desconforto”. “Aí tem alguém que exagera para um lado, e o outro, para o outro lado. Mas nós aqui utilizaremos nossa linguagem”, minimiza.

 

Borba considera que a redação do Conic foi “de fato muito provocadora”, não só no texto-base, de 80 páginas, mas nos curtos, voltados para os jovens, por exemplo. Um deles, aponta, recomenda a franquia de filmes “Minha mãe é uma peça”, comédia generosa em palavrões e no retrato de novos comportamentos para além da imagem da tradicional família cristã. “Não souberam fazer essa linguagem, e tiveram outros problemas, a partir dos quais o Centro Dom Bosco deitou e rolou. Se você tem a hegemonia, fica quietinho, não pode contar vantagem”, diz.

 

Vice-presidente do Centro Dom Bosco, Álvaro Mendes afirma que as Campanhas da Fraternidade têm sido historicamente lideradas por “revolucionários infiltrados na Santa Igreja Católica”. “Os católicos de todo Brasil esperam que a CNBB reconheça o erro e condene o documento e a ideologia que anima o Conic. A CNBB é controlada por muitos bispos que não tem correspondido com a sua vocação de serem guardiões da fé. É uma tragédia de dois mil anos, que começou com Judas Iscariotes e que continuará até o fim dos tempos”, diz.

Secretário-geral da CNBB, dom Joel Amado preferiu não comentar a declaração.