O Globo, n.32007 , 25/03/2021. Sociedade, p.11

 

Empresários compram vacinas sem repasse ao SUS

25/03/2021

 

 

Denúncia é da revista Piau í, que apurou que um grupo de 50 pessoas tomou a primeira dose de imunizante da Pfizer fora do PNI

Um grupo de 50 pessoas, formado por políticos, empresários e seus familiares, tomou ontem a primeira das duas doses da vacina da Pfizer contra a Covid-19, em Belo Horizonte, sem passar pela fila de prioridades estabelecida pelo Programa Nacional de Imunização do governo. A informação é de reportagem publicada ontem pela revista Piauí, que relatou que tais doses foram compradas por iniciativa própria, sem repasse ao SUS (Sistema Único de Saúde). As duas doses teriam custado, para cada pessoa, R $600, e a segunda delas estaria prevista para ser aplicada daqui a 30 dias.

O grupo é formado principalmente por pessoas ligadas ao setor de transporte de Minas Gerais. Ainda de acordo coma reportagem, pessoas que foram vacinadas na ocasião afirmaram que foram os irmãos Rômulo e Robson Lessa, donos da viação Saritur, que organizaram a imunização do grupo. Uma garagem de uma empresa do grupo teria sido improvisada como posto de vacinação. Procurado pela reportagem, o grupo Saritur afirmou que os nomes citados “não fazem parte do corpo societário” e disse que o caso é de “total desconhecimento da diretoria”.

No começo de março, o Congresso aprovou uma lei que autoriza a compra de vacinas pela iniciativa privada. No entanto, elas precisam ser repassadas ao SUS até que os grupos de risco — compostos de idosos e pessoas com comorbidades, o que reúne 77,2 milhões de brasileiros, de acordo com o Ministério da Saúde — tenham sido plenamente imunizados no país.

Até agora, apenas 13,3 milhões de pessoas foram imunizadas coma primeira dose da vacina contra a Covid-19 e 4,4 milhões tomaram a segunda, de acordo com o consórcio de imprensa formado por O GLOBO, Extra,G1,Fo lha d eS. Paulo,UOLeO Estado deS.Pa ulo. O patamar exigido pela lei não foi, portanto, atingido. Mas, ainda que o tivesse sido, mesmo depois da imunização dos grupos prioritários, as vacinas compradas pela iniciativa privada deveriam ser divididas meio ameio como SUS, numa operação fiscalizada pelo Ministério da Saúde.

De acordo com relatos feitos à reportagem, o grupo foi vacinado por uma enfermeira que atrasou porque estava imunizando outro grupo na Belgo Mineira, uma siderúrgica que agora faz parte da Arcellor Mittal Aços.

De acordo coma Piauí, conforme relatos de pessoas presentes, o deputado estadual de Minas Alencar da Silveira (PDT) estaria entre os vacinados. Procurado pelo GLOBO, Silveira negou a informação. Outro que nega ter tomado a vacina, apesar de aparecer na revista, inclusive, como fonte d a reportagem, é o ex-senador Clésio Andrade, ex-presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT).

— Eu ainda não tomei a vacina e defendo as regras de vacinação do Ministério da Saúde. Aliás, repito que eu preferia que os idosos, como eu, dessem a vez aos mais jovens, que são obrigados a sair de casa para trabalhar — disse Andrade, que tem 68 anos e afirmou desconhecera entrevista que teria dado à Piauí.

Em nota ao GLOBO, a Pfizer também negou qualquer venda ou distribuição de sua vacina contra a Covid-19 no Brasil fora do âmbito do Programa Nacional de Imunização: “A Pfizer nega qualquer venda ou distribuição de sua vacina contra a Covid -19 no Brasil fora do âmbito do Programa Nacional de Imunização. O imunizante Comirnaty ainda não está disponível em território brasileiro”, escreveu a farmacêutica, acrescentando que “a Pfiz ere a BioNTech fecharam um acordo com o Ministério da Saúde contemplando o fornecimento de 100 milhões de doses da vacina contra a Covid-19 ao longo de 2021”.

O GLOBO tentou contato com os empresários citados na reportagem, mas não obteve retorno até a conclusão desta edição.