Título: Indústria eleva pressão sobre juros
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Fonte: Jornal do Brasil, 07/01/2009, Economia, p. A15
Queda da produção contrasta com alta das vendas de veículos e volta de investidores à Bolsa
A queda acima do esperado da produção industrial em novembro levou economistas a reverem para baixo as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano. Tal fato contrasta, no entanto, com uma série de sinais favoráveis vindos do mercado financeiro, que vive um início de 2009 marcado pelo retorno de investidores estrangeiros. Ontem, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encerrou o sexto pregão consecutivo de alta. Ao mesmo tempo, o dólar fechou em baixa pelo quarto dia consecutivo.
De qualquer forma, o resultado da indústria divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) levou os mesmos agentes econômicos a elevarem a pressão para uma queda de até meio ponto percentual da taxa básica de juros (Selic) na próxima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom). De acordo com os dados divulgados ontem pelo IBGE, a indústria amargou queda de 5,2% na produção de novembro frente a outubro, a mais acentuada desde maio de 1995. (Ver matéria ao lado) Em relação ao mesmo período de 2007, a queda foi de 6,7 por cento. Nos dois casos, o recuo foi mais forte que o esperado por analistas. "E as primeiras sinalizações referentes a dezembro não são muito alentadoras", avalia um relatório da LCA Consultores, consultoria que já teve como sócio o atual presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho.
Com base nos indicadores antecedentes já conhecidos, a estimativa preliminar da LCA é que, em dezembro, a produção industrial tenha caído 4% frente a 2007 e 1,7% sobre novembro. Diante dos resultados fracos, a LCA cortou sua estimativa para o PIB no quarto trimestre de crescimento de 4,3% para 3% na comparação anual e de estabilidade para contração de até 1% no resultado dessazonalizado. O economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, ainda não revisou sua projeção de queda de 1% do PIB no último trimestre de 2008, mas já considera que "talvez fique mais perto de queda de 1,5%". Isso é resultado do crédito escasso nesse período de crise. Como vemos, o destaque negativo foi o setor automotivo diagnostica Campos Neto.
Veículos em retomada
Em novembro, a produção de veículos despencou 34,2% sobre igual período de 2007, depois de ter sido um dos carros-chefes do crescimento até o início do segundo semestre. Em dezembro, no entanto, o setor deu alguns sinais de melhora, ainda que, por ora, os dados disponíveis sejam apenas de vendas. De acordo com a Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus novos no país avançaram 11,54% frente a novembro após as medidas de desoneração do governo e maior oferta de crédito. Na comparação com igual período de 2007, houve queda de 16,4% dado melhor que o recuo de 25% visto em outubro.
Não dá para dizer que o pior já passou. A perspectiva para o início deste ano ainda é bem fraca, apesar de não podermos tomar novembro como base avalia Neto, do Schahin. Isso reforça a idéia de meio ponto de corte do juro básico este mês. Se tiver surpresa, é mais queda e não menos queda. Para a Rosenberg & Associados, a fraqueza da atividade deve colocar rapidamente a inflação de volta à meta. Tal fato, segundo a consultoria, deverá levar o BC a reduzir os juros na próxima reunião. Na última reunião, em dezembro, o Copom decidiu manter o juro básico do país em 13,75%, apesar de ter discutido a possibilidade de um corte de 0,25 ponto percentual.