O Estado de São Paulo, n. 46440, 10/12/2020. Metrópole, p. A13

 

Sem plano completo ou vacina aprovada, Pazuello fala em imunizar em dezembro

Mateus Vargas

10/12/2020

 

 

Ele diz ser possível começar imunização este mês se houver autorização de aplicação emergencial de doses da Pfizer; já integrantes da pasta veem prazo como improvável, uma vez que o governo depende da compra de seringas e não há pedido de uso do produto na Anvisa

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, mudou o discurso sobre o começo da imunização no Brasil e afirmou que, se houver autorização de uso emergencial, as doses podem ser aplicadas já em dezembro. Ele ponderou que é provável começar a campanha nacional entre janeiro e fevereiro, ainda assim datas mais otimistas do que as apresentadas pelo ministério na semana anterior. Em entrevista à CNN Brasil, Pazuello entregou o plano de logística para a vacinação, que ele disse estar "pronto", mas o documento ainda passa por revisão e só deve ser divulgado na próxima semana.

O começo da vacinação em dezembro é improvável, segundo integrantes do próprio Ministério da Saúde. Além de o governo federal ainda depender da compra de milhões de seringas e agulhas, não há pedido de registro ou uso emergencial de vacinas nas mãos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Pazuello apontou que a Pfizer poderia conseguir esse aval da agência reguladora, mas a própria empresa, que ainda aguarda assinatura de contrato com o ministério, diz que dificilmente trará doses ao País em dezembro. A previsão mais otimista do laboratório é começar a importação em janeiro e, nos primeiros três meses, acumular doses suficientes para vacinar cerca de dois milhões de habitantes. No total, a negociação com a Pfizer envolve a compra de 70 milhões de doses.

A declaração de Pazuello foi vista entre gestores do SUS como resposta a críticas sobre a lentidão para fechar contratos de compra de vacinas que estão em fase mais avançada de desenvolvimento. Alguns governadores têm negociado a compra do imunizante e das seringas de forma paralela para evitar um prejuízo similar ao dos testes e respiradores, que o ministério entregou em menor número do que havia prometido.

A mudança de tom do ministro também foi lida como reação ao governador João Doria (PSDB), desafeto do presidente Jair Bolsonaro, que fixou 25 de janeiro como data para o começo da imunização no Estado de São Paulo, mesmo sem ter pedido registro da Coronavac à Anvisa. A vacina, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantã, ligado ao governo paulista ainda não teve os dados de eficácia da fase 3 de testes divulgados.

A expectativa é que esses resultados saiam até dia 15.

A entrega do plano de logística durante a entrevista surpreendeu até auxiliares de Pazuello. Em audiência na Câmara dos Deputados, o secretário Nacional de Vigilância Sanitária, Arnaldo Medeiros, minimizou o gesto e disse que foi uma apresentação "simbólica", pois o documento ainda passa por mudanças. A população privada de liberdade, por exemplo, foi retirada do grupo prioritário que havia sido apresentado na última semana. Já agentes penitenciários seguem no plano (leia mais na pág. 14).

Dentro do ministério, a entrega, mesmo que "simbólica", foi considerada um erro de comunicação de Pazuello, pois abriu margem para a imprensa, parlamentares e gestores locais cobrarem o documento, que ainda está sendo finalizado. Em nota, a pasta reconhece que o plano está sob revisão e afirma que o documento será apresentado ao STF e à população durante evento, sem citar datas.

Pressão sobre a Anvisa. A fala de Pazuello também joga mais pressão sobre a Anvisa para a aprovação de vacinas. Dirigentes e técnicos da agência já manifestavam incômodo por Doria apontar datas para imunizar a população mesmo antes de o Butantã apresentar dados finais sobre a Coronavac para a agência.

"Se consultarem minhas entrevistas anteriores, sempre disse ter esperança de ter a vacina no primeiro semestre de 2021, mas nunca fixei um mês e muito menos um dia. Para os que fazem, eu desejo boa sorte. Enquanto isso, continuamos trabalhando com o mundo real, que é o mundo científico", disse o presidente da Anvisa, Barra Torres, em entrevista à Jovem Pan na última segunda-feira.

A Anvisa tem até 60 dias para avaliar o registro de vacinas da covid-19. Este tempo cai, se a empresa optar pela "submissão contínua" de documentos, para 20 dias por "bloco" de informação entregue à agência. O órgão espera ser ainda mais célere para aprovar o uso emergencial. Nesse caso, é preciso definir com o governo federal ou estadual um público-alvo para a imunização, que só pode ser feita no SUS. O tempo de análise, porém, é travado se houver questionamento da agência. Há ainda lei deste ano que dá para a Anvisa prazo de 72 horas para responder sobre a entrada no País de produtos para a covid, como vacinas, que já têm registro nas autoridades sanitárias da Europa, EUA, Japão e China. A agência entende que pode até negar a entrada e cobrar mais documentos, mas, caso não se manifeste, o registro é dado automaticamente após o prazo.

Na Justiça. O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entrou com ação no STF ontem apontando omissão do governo Bolsonaro em razão da demora em fornecer um plano definitivo nacional de imunização. A OAB fez diferentes pedidos à Corte, entre eles o de permissão para comprar e fornecer vacinas que já tenham registro em 'renomadas agências de regulação no exterior, independente de registro na Anvisa' e também do uso de verbas recuperadas pela Lava Jato e outras operações na compra de imunizantes. 

Ajuda aérea

A companhia aérea Azul promete colocar à disposição das autoridades o transporte gratuito das vacinas usando sua malha de voos existente. O grupo está em 113 cidades em todo o País.

 OUTROS PAÍSES

• Estados Unidos

O país de 328 milhões de habitantes comprou 600 milhões de doses e prevê iniciar a vacinação em 10 de dezembro. A previsão é imunizar 24 milhões até meados de janeiro e ter cerca de 100 milhões de vacinados até março.

 • Reino Unido

Com uma campanha iniciada esta semana, os britânicos foram os primeiros a vacinar no Ocidente. Com população de 63,3 milhões, o governo encomendou 340 milhões de doses - 40 milhões são da Pfizer.

 • Alemanha 

O país de 83 milhões de pessoas prevê começar a imunização em dezembro. Das 300 milhões de doses compradas, a prioridade será para idosos, profissionais de saúde, entre outros.

 • México

Segundo país latino-americano em população, com 126 milhões de habitantes, o México prevê iniciar a vacinação ainda este mês. Só da Pfizer, foram compradas 34,4 milhões de doses. O país também tem acordo com a Universidade de Oxford.

 PONTOS-CHAVE

Novo tom é adotado após anúncio de SP

• Mudança de discurso

O governo federal agora fala que, se houver autorização para uso emergencial, as doses da vacina contra a covid-19 podem começar a ser aplicadas já no mês de dezembro. O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, diz que o plano de logística para a imunização está pronto, mas só será divulgado publicamente na semana que vem. O prazo da vacinação é considerado improvável por técnicos da pasta da Saúde.

 • Gestão Bolsonaro

O governo de Jair Bolsonaro mudou o tom no que foi visto como uma reação ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), considerado desafeto do presidente. Doria fixou 25 de janeiro como data para início da imunização no Estado, mesmo sem ainda ter feito pedido formal à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A vacina Coronavac está em fase 3 de estudos.

 • Expectativa

A vacina desenvolvida pela chinesa Sinovac e produzida em parceria com o Instituto Butantã deverá ter os resultados de eficácia divulgados até o próximo dia 15, na previsão do governo de São Paulo. A Anvisa tem até 60 dias para avaliar o registro de vacinas da covid-19, mas o prazo pode ser reduzido em razão do processo de submissão contínua.

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Ministro diz que pode comprar Coronavac

Mateus Vargas

10/12/2020

 

 

À CNN, Pazuello também mudou o tom sobre a compra da Coronavac. Ele confirmou que o imunizante será comprado, caso receba registro da Anvisa: "Coloco isso, tem sido repetido pelo presidente da República, a vacina que estiver registrada na Anvisa, garantida a sua eficácia e segurança será comprada para todos os brasileiros. Sim, essa é a resposta (sobre a compra da Coronavac)."

A compra da vacina do Butantã é assunto espinhoso para Pazuello desde outubro, quando foi desautorizado por Bolsonaro e teve de recuar de proposta de compra do produto, que chegou a chamar de "vacina brasileira". Em reunião com governadores feita no Palácio do Planalto anteontem, Pazuello disse que, além do registro, teria de conferir a demanda e o preço da Coronavac para decidir sobre a compra. Mais tarde, disse em pronunciamento que cabe ao governo federal planejar a imunização no País, cobrou união, mas ignorou a Coronavac. 

O governo Jair Bolsonaro aposta na vacina da Universidade de Oxford e a farmacêutica Astrazeneca. A Fiocruz trabalha para incorporar a tecnologia e produzir doses desse imunizante. Mas os cientistas responsáveis pelo desenvolvimento da vacina já reconheceram erros nos testes iniciais e a necessidade de ampliar ensaios clínicos para medir a eficácia, o que deve atrasar o registro. Além disso, a pasta espera receber doses para 10% da população por meio da Covax Facility, consórcio liderado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Na soma, o governo espera ter 300 milhões de doses de vacinas em 2021. A expectativa é de imunização em duas doses.