Título: Muito além de Carla Bruni
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 24/12/2008, Opinião, p. A8
As razões para o festejo em torno da visita de Nicolas Sarkozy e Carla Bruni ao Brasil ultrapassam os limites do charme da primeira-dama ¿ a ex-modelo e cantora que tem emprestado simpatia e glamour à agenda diplomática da França. Foram alvissareiros os atos, gestos e declarações dos últimos dias, entre os quais os acordos nas áreas de defesa e meio ambiente, de um lado, e a previsão de que os dois países vão se aliar na próxima reunião do G-20, marcada para 2 de abril. No momento, Sarkozy é presidente, por rodízio semestral, do Conselho Europeu, órgão máximo da União Européia, que reúne os chefes de Estado do continente.
Os bons ventos trazidos pelo primeiro-casal francês incluem os acordos militares, que atingem a cifra de 8,6 bilhões de euros, com transferência de tecnologia para que o Brasil possa desenvolver sua própria indústria bélica. Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o acordo representa uma ruptura, com força o suficiente para refletir o status do país como potência emergente. Sarkozy emendou: "Se a França aceita transferir a tecnologia militar é porque estamos conscientes de que o Brasil tem um grande potencial para promover a paz e a segurança, assim como tem um grande potencial econômico e político".
Os fatos sugerem que tais declarações são mais substantivas do que poderia supor a mera liturgia diplomática desses encontros. Prova disso é a pretensão comum de União Européia e Brasil trabalharem juntos nas negociações do próximo encontro do G-20. Ao governo brasileiro interessa a parceria: o foco será na regulação dos mercados financeiros e em medidas relativas às alterações climáticas. A boa notícia é que, contrariando as posições adotadas até o momento pelo bloco europeu, especialmente na área agrícola, Sarkozy e o presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Durão Barroso (também em visita ao Rio), demonstraram ser contrários ao protecionismo.
Acrescente-se o fato de que o Plano de Ação da Parceria Estratégica já tem um ano ¿ foi elaborado na 1º Cúpula, em Lisboa ¿ e mais dois em vigor, embora possa ser revisto. Inclui biotecnologia, nanotecnologia, energia nuclear, defesa com transferência de tecnologia, além da compra de equipamentos. Os resultados desde Lisboa são expressivos. De janeiro a novembro de 2008, o intercâmbio comercial entre o Brasil e a UE atingiu US$ 77 bilhões, ou 22,2% do comércio total do Brasil. O crescimento foi de 26% sobre o mesmo período em 2007.
Passado o encantamento inicial da visita, é hora de continuar a colher os frutos práticos do encontro de cúpula. Por exemplo, os empresários, habitualmente pragmáticos, defenderam o entendimento direto com a UE quando não for possível via Mercosul. Embora compreensível, a defesa dos empresários abre uma brecha de dúvida ¿ afinal a política externa e diplomática do país tem destacado o imperativo das negociações no âmbito do Mercosul. Mais: Sarkozy defendeu, simpaticamente, a inclusão do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Como se sabe, trata-se de uma antiga reivindicação do país (e mais ainda do governo Lula). Mas a opinião não é consensual. Outros países europeus, como Itália e Espanha, são contrários.
Os passos dados agora, contudo, inspiram um horizonte vistoso ¿ seja para as relações entre europeus e brasileiros, seja para a posição do Brasil no jogo de potências internacionais.