Título: Os guerrilheiros que adoram o Brasil
Autor: Ben Lievens
Fonte: Jornal do Brasil, 13/02/2005, Internacional, p. A15

Líder do PKK, grupo massacrado no Iraque e perseguido na Turquia, quer importar programas do PT

Já tinha ouvido falar de Abdullah Öcalan, o líder dos curdos capturado na África em 1999 e mantido isolado do mundo pela Turquia numa prisão em algum ponto do Mediterrâneo. Interessado no drama desse povo sem pátria de 30 milhões de pessoas juntei-me em janeiro a um amigo (um curdo com passaporte belga) e seguimos para a fronteira com o Irã, Iraque e Turquia. Ali, no coração das montanhas Zagros, vivem os militantes do PKK, um dos mais antigos grupos guerrilheiros ainda em atividade no mundo. Arredio a estrangeiros o atual chefe, Murat Karaylan, há cinco anos não recebia um jornalista ocidental. A fama do presidente Lula e de Ronaldo fizeram que eu fosse o primeiro.

Era a minha segunda ida ao Iraque. Sabia que a situação era arriscada, mas graças a contatos que fizemos nos dois meses que esperamos o visto, conseguimos seguir em segurança. Num deles, recebi o número de um telefone que deveria ligar em Djarbakir, a última cidade turca antes da fronteira iraquiana e capital do Curdistão.

Lá, o contato nos levou ao prefeito da cidade. Sem dizer o nome, ao ver que vinha do Brasil, começou a falar do país com admiração. Um dos planos, disse, era ligar sua cidade ao Rio de Janeiro para ''trocas culturais entre as duas metrópoles''. No final, arrumou um motorista e mais um número secreto. Saímos de madrugada e, à noite, cruzamos a fronteira, não sem antes passar por mais um interrogatório sobre os objetivos da viagem - encerrado com o sorriso habitual à menção ao Brasil.

O Curdistão viveu anos sob o jugo de Saddam Hussein, até receber proteção após a Guerra do Golfo. Desde então, ganhou autonomia. Dois grupos dividem o poder ali: o Partido Democrático Curdo (KDP), e a União Patriótica do Curdistão (PUK). Ambos só têm integrantes iraquianos. Curiosamente, a sigla PKK indica mais uma afinidade que, adiante, comprovaria pessoalmente: o maior dos grupos políticos e militares curdos, integrado por turcos, iranianos, sírios, australianos e até alemães, chama-se Partido dos Trabalhadores do Curdistão.

Fundado em 1978 dentro de uma vertente marxista, o grupo é acusado pela Turquia de vários atos terroristas. Em 2002, mudou o nome para Congresso Curdo para a Democracia e a Liberdade (Kadek). O braço militar foi batizado de Kongra-Gel.

Nosso segundo contato avisou que deveríamos evitar Mossul e ir para Arbil, 250 km a Leste. Lá, após três horas, saímos rumo ao Norte. Passamos por quatro bloqueios, sempre com a mesma rotina. Parar o carro, abrir a bagagem e explicar a razão de nossa presença. Cinco horas mais tarde, chegamos a Maxmur, campo de refugiados dos curdos da Turquia, onde aguardaríamos novas ordens. Quase três dias depois finalmente subimos as montanhas.