O Globo, 03 de abril de 2021, nº 32016, Opinião, p. 5
Reforma ministerial foi articulada por Ramos e Lira
Natália Portinari
03 de abril de 2021
A troca de seis ministros, na última segunda-feira, foi uma operação conjunta entre ministros militares que atuam no Palácio do Planalto e lideranças do Centrão no Congresso. Os principais conselheiros do presidente Jair Bolsonaro nesse processo foram o ministro Luiz Eduardo Ramos (agora na Casa Civil) e o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL).
Pesaram para a decisão de mudança na Defesa as críticas nas Forças Armadas a Eduardo Pazuello por não ter ido para reserva após a demissão na Saúde e continuar em busca de outro cargo no governo, algo que Bolsonaro ainda estuda.
O presidente já ensaiava, há meses, trocar o ministro da articulação política por um deputado ou senador, alocando Ramos em outra pasta. Os cotados eram os senadores Eduardo Gomes (MDB-TO) e Jorginho Mello (PL-SC), e a deputada Flávia Arruda (PL-DF) — a escolhida no fim das contas.
Uma hipótese era que Ramos assumisse a Casa Civil. O problema era encontrar um espaço para Walter Braga Netto, que ocupava a pasta. Então surgiu a ideia de abrir uma “vaga” no Ministério da Defesa, ocupado por Fernando Azevedo e Silva, com quem Bolsonaro vinha tendo atritos recentes.
Um elemento da crise foi a demissão de Pazuello, general da ativa, do Ministério da Saúde. Houve desgaste com militares, como o próprio Azevedo, que desejavam que ele fosse para a reserva. O então ministro via com maus olhos o fato de um militar da ativa ocupar um posto com visibilidade na pandemia. A preocupação era que os problemas de gestão na Saúde acabassem associados às Forças Armadas na opinião pública.
Bolsonaro enxergou nisso uma falta de lealdade de Azevedo com o governo. Também estava insatisfeito pelo ministro resistir a retirar Eduardo Pujol do comando do Exército. Por fim, decidiu demiti-lo, movimentação que teve o aval de Ramos e Braga Netto, ministros da “ala militar” do Palácio do Planalto.
Outro incômodo de Bolsonaro com Azevedo e Silva vinha de sua boa relação com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Por ter sido assessor do ministro Dias Toffoli, o ministro nunca conseguiu vencer a desconfiança de Bolsonaro de que teria proximidade demais com a Corte, o que era visto como problema.
O presidente teve ainda um problema com José Levi Mello do Amaral Júnior, advogado-geral da União até segunda-feira. Levi não assinou uma ação contra medidas restritivas nos estados, o que deixou o presidente “bastante irritado”, segundo interlocutores próximos. Para Bolsonaro, isso era um recado contra ele.
O presidente teve ainda um problema com José Levi Mello do Amaral Júnior, advogado-geral da União até segunda-feira. Levi não assinou uma ação contra medidas restritivas nos estados, o que deixou o presidente “bastante irritado”, segundo interlocutores próximos. Para Bolsonaro, isso era um recado contra ele.
Dias antes de anunciar a reforma ministerial, Bolsonaro já confessava o desejo de trocar Levi e Azevedo. Mas resistia ao bombardeio do Congresso para demitir Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores. Com posições extremistas, o chanceler era visto pelo presidente como um nome estratégico para sua base eleitoral.
O cenário mudou no domingo. Pela tarde, o presidente esteve com Ramos no apartamento de Braga Netto. Ramos fez uma ligação sondando Flávia Arruda para assumir seu próprio cargo na Secretaria de Governo. As trocas no Ministério da Defesa e na Advocacia-Geral da União (AGU) já estavam praticamente decididas.
Um tuíte de Ernesto Araújo no domingo expondo uma conversa privada com a senadora Kátia Abreu (PPTO) foi interpretado como uma declaração de guerra dele aos senadores. Na manhã de segunda-feira, Arthur Lira tomou café com o presidente. Bolsonaro abriu seus planos de fazer trocas em ministérios, teve o aval de Lira para convidar Flávia Arruda, e ouviu que deveria aproveitar o momento para demitir Araújo também.
DEMISSÃO ABAFADA
Bolsonaro cedeu, segundo interlocutores do presidente, por entender que, dessa forma, a demissão do principal ministro da “ala ideológica” seria abafada pelas demais trocas, o que poderia diminuir o impacto da mudança entre seus apoiadores mais radicais, inclusive nas redes sociais.
A indicação de Flávia Arruda acalmou os ânimos do PL, cujas lideranças vinham se queixando da ausência de espaço desde que João Roma (Republicanos-BA) assumiu a pasta da Cidadania. Ela se aproximou do governo ao presidir a Comissão Mista de Orçamento de 2021.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, já havia feito chegar ao presidente que Flávia seria um bom nome para o partido. Eduardo Gomes, do MDB, também estava forte no páreo, mas o presidente optou por privilegiar uma parlamentar de um partido do “núcleo duro” de sua base de apoio.
As trocas abriram uma crise nas Forças Armadas, cujos comandantes ameaçaram até uma renúncia conjunta em protesto. Braga Netto se antecipou e comunicou a troca dos três comandos. Entre os aliados do Centrão, a reforma ministerial foi bem recebida.