Correio Braziliense, n. 21.133, 04/04/2021. Brasil, p. 5

 

Um dia a dia marcado por escolhas difíceis

04/04/2021

 

 

Com sistema de saúde no limite tomado pelo novo coronavírus, os médicos muitas vezes precisam escolher quem vai para o leito na unidade de terapia intensiva (UTI) e quem permanece sem assistência adequada. Por isso, estados brasileiros mais atingidos pela doença começaram a colocar em prática protocolos para definir critérios e auxiliar profissionais da saúde a fazerem a difícil escolha entre um paciente e outro.
É o caso de Santa Catarina, que estabeleceu o protocolo de alocação de recursos em esgotamento durante a pandemia da covid-19 para definir critérios de quem ocupa ou não uma vaga na terapia intensiva. O objetivo, segundo a Secretaria de Estado da Saúde (SES/SC), é "tornar transparente e impessoal os critérios de eleição de pacientes para ocupação de leitos".

Ainda em abril do ano passado, quando a crise de saúde mundial começava a desafiar a resposta brasileira, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) elaborou o protocolo de alocação de recursos em esgotamento durante a pandemia por covid-19 com o objetivo de retirar das mãos dos profissionais da linha de frente "a responsabilidade de tomar decisões emocionalmente exaustivas". A prioridade são os pacientes com melhores chances de se beneficiar com uma UTI e com maiores expectativas de sobrevida.

"Neste cenário há uma tendência em se priorizar os recursos para quem tem mais chances de sobreviver. Se isto não for feito, corre-se o risco de não se salvar ninguém", confirma o médico intensivista do Hospital Sírio-Libanês em Brasília, Carlos Rassi. Segundo ele, protocolos como esse existem e são comuns nas catástrofes e pandemias.

O intensivista Rodrigo José Oliveira, que atende em dois hospitais na cidade de Curvelo, Minas Gerais, explica que a adoção desse tipo de protocolo é mais frequente na rede pública de saúde, tendo em vista que, muitas vezes, não há um número necessário de vagas de UTIs, até mesmo para outras patologias. "Na prática, isso não é novidade aqui no Brasil. Mas, em uma situação de catástrofe como a que estamos vivendo, é uma necessidade", avalia.

A precariedade mais acentuada na rede pública reflete uma maior mortalidade de pacientes atendidos em UTI para covid-19 pelo Sistema Único de Saúde (SUS), na comparação com o sistema privado. De acordo com levantamento da Amib, mais da metade dos que precisaram do recurso intensivo durante a pandemia morrem: 52,9%. Já nos hospitais privados, o índice cai para 29,7%.

Para o coordenador da plataforma UTIs Brasileiras, da Amib, Ederlon Rezende, o fato de a rede pública estar recebendo pacientes já mais agravados explica parte desta diferença. "Nos hospitais públicos, isso representa cerca de 65% das pessoas atendidas, enquanto que nas UTIs privadas é de 40%". Outros possíveis fatores são a dificuldade maior em conseguir um leito do SUS e a melhor infraestrutura privada.

Impotência
Lidar com a alta demanda é cenário de ambas as frentes, o que tem tornado a necessidade de tomar decisões sobre qual paciente recebe um leito recém-desocupado cada vez mais frequente. "Infelizmente, eu já passei por essa situação de ter que escolher entre pacientes. Já vivenciei essa angústia de saber que estarei cedendo uma vaga para um paciente e que não poderia atender outro que também precisava desse leito", relata Oliveira. Apesar de contar com protocolos específicos que norteiam a decisão, a tarefa de definir entre um paciente e outro afeta diretamente o profissional de saúde.

"Isso, para nós, médicos, se torna uma situação bem complicada, até porque nos colocamos do lado dos familiares. Todo mundo entende que seu familiar precisa de suporte e que nós seremos aquela última esperança para o paciente. Independentemente de ter protocolos ou não, isso nos gera uma sensação de impotência, que venho observando de forma bem intensa durante a pandemia de covid-19", desabafa. (BL e MEC)