Título: China e Rússia criticam
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Fonte: Jornal do Brasil, 04/03/2005, Internacional, p. A7

PEQUIM - A China acusou ontem os EUA de graves violações dos direitos humanos em 2004, especialmente no Iraque, e destacou ''a ironia de Washington em se tornar protetor mundial das liberdades fundamentais''. Em extenso relatório, Pequim criticou a discriminação racial, a violência nas ruas americanas e classificou as eleições como ''concurso baseado no dinheiro''.

É o sexto ano em que o documento é feito, sempre dias após o Departamento de Estado emitir seu relatório anual, que dessa vez denunciou abusos no mundo sem falar da prisão americana de Guantánamo e das torturas de militares dos EUA contra presos em Bagdá. Os chineses advertiram a Casa Branca que deve perceber os próprios problemas, já que os EUA ''acusam mais de 190 países, mas se calam a respeito dos próprios erros''.

''É preciso mostrar a situação por trás da Estátua da Liberdade'', ressalta o texto, baseado em jornais, citando ''a atrocidade aos presos no Iraque'' como exemplo de comportamento sistemático.

Além disso, o relatório lembra que grande parte das 100 mil vítimas causadas pelos EUA, desde a invasão do Iraque, foi de mulheres e crianças. Noutro capítulo, dedicado à segregação racial, destaca que entre negros do país há dez vezes mais casos de Aids que entre brancos, três vezes mais pobres e cinco vezes mais vítimas de crimes violentos.

Também fala de brutalidade policial e revela que 80 pessoas morreram, desde 1999, por descargas elétricas de um aparelho usado pela polícia para neutralizar os detidos. E que as prisões ''converteram-se em um negócio que emprega 530 mil pessoas, o segundo maior empregador do país, perdendo só para a General Motors''. Pequim afirma ainda que o sistema é ''manipulado pelos ricos'' e nele são comuns práticas como a doação de dinheiro por empresas a campanhas eleitorais para aumentar sua influência.

Em resposta às críticas sobre a falta de liberdade jornalística no país, os chineses disseram que ''a liberdade de imprensa americana é uma hipocrisia'', já que Washington ameaça e intimida os repórteres mais críticos.

Outro país citado a reagir ontem foi a Rússia, cujos policiais são acusados pelos EUA de se envolver em tortura e outros métodos brutais e de humilhação especialmente no conflito com a Chechênia. O Departamento de Estado também criticou Moscou pela censura à imprensa, pelas fraudes em eleições e pela pressão política contra o Judiciário.

''Tais críticas nos mostram que a dupla personalidade é uma característica da abordagem dos EUA sobre o tópico. É um relatório tendencioso'', afirmou o Kremlim em nota

O governo russo disse, ainda que o levantamento americano ignorou as preocupações sobre o tratamento dispensado às minorias russas que vivem nos países bálticos que fizeram parte da antiga URSS.

Os russos disseram ainda que os EUA são culpados de violações dos direitos humanos e repetiu a lembrança chinesa sobre o Iraque, a discriminação racial e os problemas nas eleições presidenciais.

O relatório de Washington saiu apenas quatro dias depois de o presidente Bush ter discutido o tema com o colega russo, Vladimir Putin.