O Globo, n. 32026, 13/04/2021, Mundo, p. 19
Revanche do interior no Peru
Janaína Figueiredo
13/04/2021
Ocandidato de extrema esquerda Pedro Castillo, do partido Peru Livre, ficou em primeiro lugar em 16 das 24 regiões peruanas na eleição presidencial de domingo. Sua provável adversária no segundo turno, segundo cenário confirmado por dados oficiais preliminares, será a ex-deputada Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), do Força Popular, que foi amais votada nas oito regiões restantes.
A avalanche de votos para um sindicalista antissistema, defensor do governo venezuelano de Nicolás Maduro, de uma reforma constitucional e profundamente crítico do modelo econômico do paí sé explicada por analistas locais co mouma revanche do interior excluído e empobrecido contra acapitale o litor aldo país, tradicionalmente mais ricos.
Num momento em que as mortes na pandemia voltam a subir —para uma média de 289 por dia, contra 52 no início de janeiro, atingindo um total de 54 mil óbitos no país de 32,5 milhão de habitantes — muitos peruanos se sentiram atraídos por um discurso radical do ponto de vista político e econômico e conservador em termos culturais: Castillo é contra a legalização do aborto e o “enfoque de gênero” na educação.
DILEMA PARA A DIREITA
Com 88% das atas de votação apuradas pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe, na sigla em espanhol), o candidato do Peru Livre está em primeiro lugar, com 18,29% dos votos, e Keiko em segundo, com 13,24%. O economista liberal Hernando De Soto aparece em terceiro, com 11,92%. O segundo turno será em 6 de junho.
A contagem rápida de votos realizada pela empresa de consultoria Ips os projetou a vitória do sindicalista C astil lo— que em 2016 tornou-se conhecido ao liderar uma greve nacional de professores — com 18,1% dos votos, contra 14,5% de Keiko, para quem um procurador do Ministério Público peruano pediu 30 anos de prisão soba acusação de lavagem de ativos.
No campo da esquerda, Castillo — cujo partido se define como “marxista, leninista e mariateguista”, em referência a José Carlos Mariátegui
(1894-1930), o mais famoso pensador marxista peruano — ofuscou Veronika Mendoza, do Juntos pelo Peru, que em 2016 ficou em terceiro lugar na disputa presidencial. Na época, ela obteve 18,74% dos votos, contra cerca de 8% agora.
O panorama representa, também, um enorme dilema para a direita peruana. Os outros dois principais nomes desselado aparecem em terceiro e quarto lugares na apuração:De Soto, queno passado foi próximo do fujimorismo e representa hoje uma direita liberal, e o empresário de extrema direita Rafael López Aliaga, que já foi chamado de Bolsonaro peruano.
Na visão do jurista Pedro C ateriano, que foi presidente do Conselho de Ministros do governo de Martín Vizcarra (2018-2020), a corrida final pela Presidência será difícil para ambos os candidatos, já que 70% dos peruanos votaram em outras opções.
O resultado do pleito provocou turbulências nos mercados locais — a bolsa abriu em baixa, e os títulos peruanos caíram em mercados externos.
Na visão do jurista Pedro C ateriano, que foi presidente do Conselho de Ministros do governo de Martín Vizcarra (2018-2020), a corrida final pela Presidência será difícil para ambos os candidatos, já que 70% dos peruanos votaram em outras opções.
O resultado do pleito provocou turbulências nos mercados locais — a bolsa abriu em baixa, e os títulos peruanos caíram em mercados externos.