O Globo, n. 32015, 02/04/2021, País, p. 4
Magistrados ligados a igrejas também disputam indicação
02/04/2021
A disputa pela vaga que será aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) em julho, com a aposentadoria do ministro Marco Aurélio Mello, não se restringe ao procurador-geral da República, Augusto Aras, e ao advogado-geral da União, André Mendonça. Outros nomes ligados a lideranças evangélicas e políticos também buscam se cacifar para o cargo, como já mostrou O GLOBO.
Um deles é o recém-empossado desembargador no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, William Douglas dos Santos. Bem-visto na bancada da Bíblia no Congresso Nacional, o magistrado tem apoio de lideranças importantes no segmento evangélico, como o bispo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo, e o missionário R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus.
Aos 53 anos, William Douglas tem experiência como advogado, delegado, defensor público e juiz. Também tem uma carreira de sucesso com a venda de livros em áreas como preparo para concursos públicos e desenvolvimento pessoal. Pesa contra ele, porém, o fato de ser historicamente favorável a políticas afirmativas de inclusão, como as cotas para negros em universidades públicas.
Mas o juiz também se enquadra em outro critério já ventilado pelo presidente Jair Bolsonaro para a escolha do novo ministro do Supremo, além de ser “terrivelmente evangélico”. Assim como Mendonça, é pastor.
Já o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Humberto Martins, corre por fora. Adventista, o magistrado tem 64 anos e tem buscado comparecer a eventos evangélicos, bem como sinalizar que sua nomeação poderia abrir outra vaga em uma corte superior.
O juiz alagoano tem trânsito em diversos segmentos políticos . Ele foi nomeado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o STJ em 2006 com apoio do senador Renan Calheiros (MDBAL). Hoje, Humberto Martins mantém um canal aberto com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), eleito para o posto com apoio de Bolsonaro.
Foi no tribunal presidido por Martins que as investigações do suposto esquema de “rachadinha” no antigo gabinete do senador Flávio Bolsonaro (RepublicanosRJ) na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) sofreram derrotas recentes. Uma delas foi a anulação da quebra dos sigilos bancário e fiscal que embasou a denúncia contra Flávio feita pelo Ministério Público do Rio. Pesam contra o presidente do tribunal, por outro lado, as investigações na Lava-Jato contra seu filho, Eduardo Martins, que é acusado de exercer suposta influência em julgamentos no tribunal.