Título: Mercado antecipa carnaval
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Fonte: Jornal do Brasil, 05/02/2005, Brasília, p. A17

Bovespa dispara e registra o maior volume de negócios do ano em um dia. Em Londres, Palocci defende compra de dólares pelo BC

SÃO PAULO - O mercado financeiro nacional antecipou ontem a chegada do carnaval, repercutindo positivamente as notícias vindas da maior economia do mundo. Impulsionada pelos dados sobre mercado de trabalho nos Estados Unidos e pelo discurso de Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), na reunião do G-7 que acontece em Londres, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) disparou e fechou em forte alta de 3,45%, aos 25.731 pontos e volume de R$ 1,753 bilhão - o maior para um único dia desde o começo do ano. Na semana, a alta acumulada foi de 7,3%.

Nos Estados Unidos, o Departamento de Trabalho divulgou que a criação de postos de trabalho ficou abaixo do esperado. No mês passado foram abertos 146 mil empregos no país, contra projeção de 220 mil feita por economistas. Em dezembro, haviam sido criados 133 mil empregos. Mesmo assim, a taxa de desemprego do mês passado recuou, passando de 5,4% - patamar no qual flutuava desde julho - para 5,2%. O resultado aponta que a economia americana não está tão aquecida como se acreditava, o que reduz as expectativas de aumento maior dos juros nos EUA e reduz as incertezas dos papéis dos países emergentes.

No mercado de câmbio brasileiro, o dólar chegou a operar na mínima de R$ 2,588, mas o Banco Central realizou leilão de compra, comprando moeda a R$ 2,603. No fim do dia, a moeda americana fechou em alta de 0,42%, cotada a R$ 2,614 para venda. A queda acumulada na semana foi de 1,25%.

Também em Londres para o encontro das nações mais ricas do mundo - o Brasil recebeu um convite especial para participar do evento - o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, lembrou que os fundamentos positivos da economia do país contribuem para a valorização do real. Entretanto, o ministro ressaltou que o movimento de queda do dólar acontece na comparação com as principais moedas do planeta, o que limita o raio de ação do Banco Central para segurar a queda da cotação.

- Seria ilusório de nossa parte achar que a mobilização de alguns milhões que fazemos para construir nossas reservas possa modificar a circulação de trilhões de dólares no mundo - disse o ministro, reforçando que não há meta para a cotação do dólar.

Neste sentido, Palocci acrescentou que o BC vai continuar atuando no mercado de câmbio para elevar as reservas brasileiras em moeda estrangeira.

Mas se depender do presidente do Fed, Alan Greenspan, o dólar continuará desvalorizado. Na reunião do G-7 ontem, o mago do Fed deu a entender que os Estados Unidos podem se beneficiar do atual comportamento do dólar. O presidente do Fed disse que uma ''variedade de fatores'' deve finalmente começar a restringir o crescimento ''explosivo'' do déficit comercial americano. Entre eles, está o dólar mais fraco.

Greenspan disse, no entanto, que a situação da economia mundial está, essencialmente, em ''águas desconhecidas'', devido ao nível sem precedentes de interação econômica entre os países.

- Os dramáticos avanços na última década em praticamente todos os aspectos da globalização resultaram em um ambiente econômico quase sem precedentes na história - afirmou.

Greenspan, no entanto, garantiu que qualquer ajuste no déficit comercial dos Estados Unidos será efetuado ''sem nenhuma conseqüência significativa para a atividade econômica''.

Os ventos positivos da economia brasileira também refletiram nos mercados internacionais ontem. O risco país, medido pelo JP Morgan, caiu 3,33%, para 406 pontos, enquanto o C-Bond, título mais importante da dívida externa do Brasil, subiu 0,34%, negociado aos 102,6% do valor de face. O Global 40 também se valorizou, avançando 1,78%, negociado aos 117,6% do valor de face.