Título: No dia seguinte, alianças
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Fonte: Jornal do Brasil, 01/02/2005, Internacional, p. A7
Enquanto apuração dos votos segue lenta, xiitas, curdos e laicos iniciam costura política
BAGDÁ - O bloco xiita apoiado pelo aiatolá Ali al Sistani deve dominar o recém-eleito Parlamento iraquiano, numa mudança radical na política do país, controlada há oito décadas pela minoria sunita.
Segundo Meshan al Jibouri, candidato sunita de Mosul, os sunitas ignoraram em grande parte o pleito. Ele citou a região de Duluiya, no rio Tigre, onde, segundo ele, apenas algumas centenas de sunitas votaram, enquanto houve até 60 mil votos xiitas.
- Parece que a Aliança vai ganhar e que o ministro das Finanças, Adel Abdel Mahdi, pode se tornar primeiro-ministro. No entanto, Mahdi terá de convencer forças democráticas e sunitas, que desconfiam das tendências iranianas do bloco do qual faz parte - disse Meshan al Jibouri.
Para a maioria xiita, o sentimento é o de que chegou a hora, após décadas de opressão. Integrantes da Aliança Iraquiana Unida acreditam que o bloco, formado principalmente por partidos xiitas, obteve quase a metade das 275 cadeiras da assembléia. A estimativa se baseia no trabalho de 13 mil observadores e em pesquisas de boca-de-urna.
No entanto, a Aliança provavelmente terá de se unir a partidos menores para criar uma maioria de dois terços no Parlamento, o necessário para escolher os novos líderes do país.
Um grupo curdo deve vir em segundo lugar, e em terceiro deve ficar um bloco não-religioso xiita, liderado pelo primeiro-ministro interino Ilyad Allawi.
Até os que acreditam que a Aliança Iraquiana Unida não chegue aos 50% das cadeiras da Assembléia reconhecem que o bloco estará numa posição muito favorável para obter uma coalizão governista, talvez se aliando aos curdos.
Em Washington, o presidente George Bush conversou pelo telefone sobre as eleições no Iraque com o presidente interino e com o primeiro-ministro iraquianos, assim como com os governantes da Grã-Bretanha, França e Alemanha, informou a Casa Branca. Bush, o primeiro-ministro iraquiano, Iyad Alawi, e o presidente Ghazi al-Yawar concordaram sobre a necessidade de que todos os iraquianos, incluindo líderes da minoria sunita, participem na formação do governo do Iraque.
Os três concordaram em classificar as eleições de domingo como ''um grande êxito'' e um golpe contra o terror, e na necessidade de ''assegurar que o processo político inclua todos os iraquianos, mesmo os que não votaram'', afirmou o porta-voz Scott McClellan.
- Os terroristas foram derrotados nas eleições - afirmou Iyad Allawi, que pediu ''aos que participaram ou não para conquistar juntos o futuro'', no primeiro discurso do premier interino após as eleições.
O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, o presidente francês, Jacques Chirac, e o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, também consideraram a eleição ''um significativo passo adiante'' para o Iraque e um golpe contra o terrorismo, afirmou McClellan.
- Todos concordaram que a democracia na região deu passos significativos com as eleições afegãs, palestinas e agora iraquianas - assegurou McClallen, afirmando que os líderes europeus se comprometeram com a adoção de novos compromissos para a democratização do Iraque.
Diante da pergunta se as eleições no Iraque abririam o caminho para a elaboração de um cronograma de retirada das tropas americanas do Iraque, o porta-voz replicou:
- Tomaremos essas decisões com base nas circunstâncias.
Em contraste com a violência de domingo, a segunda-feira amanheceu em um raro ambiente de calma em Bagdá. Nenhum ataque havia sido informado ao longo do dia pela primeira vez em semanas.
Apesar dos cumprimentos da comunidade internacional, que elogiou a coragem dos iraquianos e o desenrolar das eleições, o influente Comitê dos Ulemás, formado por religiosos, tentou ofuscar a legitimidade do pleito.
- O nível de participação não foi tão alto como se pretende e a imagem passada pelos jornalistas não é real porque a imprensa não teve acesso a mais de cinco colégios eleitorais - denunciou o porta-voz Omar Ragheb.
A apuração de votos começou de forma lenta ontem no Iraque, depois do fechamento no domingo à noite dos colégios eleitorais, que registraram uma participação alta no Norte curdo e no Sul xiita, mas muito baixa no centro sunita.