Título: Jornalista suspeita de ação dos EUA
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Fonte: Jornal do Brasil, 07/03/2005, Internacional, p. A7
Em artigo, Giuliana Sgrena reforça possibilidade de ataque dos soldados americanos, mas não menciona brasileiro seqüestrado
ROMA - A jornalista italiana Giuliana Sgrena voltou a falar ontem que não exclui a possibilidade de ter sido alvo dos disparos feitos por soldados dos EUA depois de sua libertação. - É sabido que os americanos não querem negociações para a libertação de reféns. Não vejo por que não possa ter sido seu alvo - afirmou a jornalista, que diz não voltar ao Iraque.
Os tiros mataram o agente italiano Nicola Calipari, 50 anos, que a acompanhava, e a feriram também. À TV italiana do hospital de Celio, em Roma, onde se recupera, Sgrena disse também que não sabia se houve um resgate em dinheiro.
Embora a Itália tenha negado pagamento aos seqüestradores antes, o ministro da Agricultura, Gianni Alemanno, disse ao jornal Corriere della Sera que ''muito provavelmente'' houve um resgate. Jornais italianos especularam US$ 10 milhões.
No artigo ''Minha verdade'', publicado ontem no jornal de esquerda onde trabalha, Il Manifesto, Sgrena diz que os bandidos avisaram que os EUA não a deixariam voltar à Itália.
A jornalista disse aos procuradores romanos que o ataque americano foi injustificado, pois o veículo circulava com uma velocidade moderada. Ela também informou que não havia um posto de controle, como alegam os EUA, mas uma patrulha a cerca de 700 metros do aeroporto de Bagdá, que disparou quando o carro foi iluminado.
Sgrena não deu evidências de sua alegação. A guerra já matou mais de 20 italianos, incluindo Calipari. Três mil soldados do país estão no Iraque.
O diretor de comunicação da Casa Branca, Dan Bartlett, repetiu ontem a versão dos EUA:
- Numa zona de combate, como a estrada que leva ao aeroporto, onde ocorreram muitos ataques com carros-bomba, é preciso tomar decisões em segundos. É muito importante conhecer os fatos antes de julgar.
Os EUA prometeram uma investigação. Os militares dizem que o carro estava em alta velocidade e que os tiros de advertência foram ignorados. Os soldados são liberados para usar a força se um veículo não parar em um posto de controle.
O companheiro de Sgrena, Pier Scolari, afirmou que um dos agentes conversava pelo celular com o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, no momento do tiroteio. Na versão italiana, a primeira reação dos soldados foi confiscar os telefones e as armas dos agentes. Eles esperaram uma hora até voltar a falar com Roma.
A jornalista não mencionou no artigo a suposta informação de que sabia que o engenheiro brasileiro João José Vasconcellos Jr. estava morto. A notícia foi divulgada há dois dias pela agência Ansa.
O governo italiano diz que o incidente não afetará as relações entre os países.
- Minha posição em relação aos Estados Unidos não mudará sobre a que já expressei milhares de vezes - disse o ministro do Exterior, Gianfranco Fini, ao Corriere della Sera.
Acompanhado por milhares de italianos, o velório de Calipari começou ontem e durará até hoje. O presidente da República Italiana, Carlo Azeglio Ciampi, e outros altos cargos civis e militares fizeram uma homenagem privada ao agente.