Título: Lula e a reeleição
Autor: Adirson de Barros
Fonte: Jornal do Brasil, 01/02/2005, Brasília, p. D2

Se o presidente Lula cumprir todos os compromissos assumidos até agora, principalmente levar o país para o desenvolvimento econômico com bem-estar social, será reeleito no próximo ano. Ele tem cumprido alguns compromissos, mas esbarra em outros, dada a incompetência de alguns auxiliares, que ele pretende mudar em fevereiro.

Por outro lado, a oposição não tem um candidato que possa enfrentar Lula no próximo ano com possibilidade de derrotá-lo. Os mais falados, Alckmin, pelo PSDB e César Maia pelo PFL, não têm dimensão nacional para candidatar-se à presidência da República. Alckmin é puramente paulista e incapaz de mobilizar o eleitorado nacional. Parece um padre saindo da sacristia, que somente os paulistas são capazes de eleger. César Maia é bom político e tem tido um desempenho satisfatório nas vezes em que ocupou a prefeitura do Rio, mas falta-lhe presença nacional, que o PFL não tem como dar. Resta examinar o atual governo.

O PT precisa compreender que Lula foi eleito sozinho, apesar do PT.Quando Lula, por três vezes seguiu a cartilha petista, foi derrotado. Na quarta tentativa, ele usou seus próprios meios, seu carisma, sua linguagem autêntica, seu marketing de alta qualidade e eficácia e, sobretudo, falou a linguagem da classe média, a única que tem influencia política no país historicamente . Não ameaçou ninguém, disse que cumpriria todos os contratos, o que levou a classe media a votar nele, sem medo do programa revolucionário com que nasceu o PT.

Político engajado na classe media, Lula terá, contudo, que fazer algumas mudanças no governo, para que possa chegar em 2006 em condições de reeleger-se. O brasileiro, como qualquer povo civilizado, quer segurança, bem-estar, progresso do país e mais dinheiro no bolso.

A política monetária terá que ser modificada, por varias razões e porque temos os mais altos juros do mundo. Primeiríssimo lugar. Passamos a Turquia, que vinha há anos liderando os juros altos, sem resultados.Os juros atuais beneficiam apenas uma classe - a dos banqueiros. Coíbe o desenvolvimento industrial e comercial e agrava ainda mais o endividamento interno do governo. Quando o BC sobe os juros, em nome do controle da inflação, a divida interna do governo sobe também, reduzindo a possibilidade de investimento publico.

Temos inúmeros problemas pela frente e a equipe econômica não é sensível a isso. Persegue, apenas, a inflação, que já está controlada, mas o BC se preocupa com a inflação de demanda, que não existe e só olha para o passado. O objetivo maior de qualquer país é o pleno desenvolvimento sustentável. A China e a Índia, países enormes, crescem assustadoramente, com capital e tecnologia estrangeira. A China tem quase 500 bilhões de dólares de reservas aplicadas em um papel mais seguro do planeta. O do tesouro americano. Assim fazem a Índia, a Coréia do Sul e outros tigres asiáticos que procuram negócios com paises desenvolvidos - como os Estados Unidos, o mais rico e poderoso do mundo.

Tentamos articular o Mercosul, até agora sem êxito. Contestamos a ALCA, sem resultados, porque os EUA estão fazendo acordos bilaterais na América Latina. Nos aproximamos da África, não sabemos a razão, pois a África não tem viabilidade. Isso se deve principalmente ao Itamarati, que faz uma política antiamericana inutilmente, pois a fonte de recursos externos está na América, que é também nosso maior mercado.

Estamos em um mundo globalizado e liderado - queiram ou não os antiamericanos do Itamarati- pela maior potência do planeta , os EUA. Dá pena, assim, ver o Itamarati fazer uma política terceiro-mundista, inteiramente ultrapassada. Só produziu mais atraso ao chamado terceiro mundo, aos países periféricos. O Itamarati, que já teve seus tempos de glória, chega ao máximo de extinguir o inglês da formação do Diplomata, que agora pode ser analfabeto em línguas estrangeiras, mas, precisando do inglês para comunicar-se com o mundo - e o inglês é sabidamente a única língua universal - terá de apelar para intérpretes ou aprender mímica para se comunicar em vez de falar .

É preciso, então, que Lula venha a corrigir tudo isso para chegar no ano próximo com todas as possibilidades de reeleger-se facilmente contra qualquer adversário. É que, apesar disso tudo o país está crescendo, com a agricultura em primeiro lugar devido a competência do ministro Roberto Rodrigues e a dos nossos agricultores no chamado agro-negócio. A reeleição de Lula está, portanto, nas mãos de Lula. Ele deve aproveitar esse tempo que lhe resta de mandato - que é bastante - para fazer a máquina do governo funcionar na direção certa.