Título: Dólar no túnel do tempo
Autor: Mariana Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 01/02/2005, Economia, p. A17
Com nova captação externa, moeda americana cai para R$ 2,61. Descontada a inflação, valor supera cotação de 1994 Os anos de real valorizado frente ao dólar pareciam ter ficado para trás com o fim da gestão de Gustavo Franco no Banco Central. Ledo engano. Ontem, o dólar bateu R$ 2,61, na menor cotação em termos reais - descontada a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - desde 1994 e a menor em termos nominais desde junho de 2002, quando foi negociada a R$ 2,60. - Para estar compatível com os tempos da paridade cambial (quando R$ 1 valia US$ 1), o dólar tinha que estar valendo R$ 2,79. Ou seja, a moeda americana está hoje (ontem) a 3,7% do máximo de desvalorização que poderia estar frente ao dólar - avalia o economista da GRC Visão, Alex Agostini.
Atualmente, segundo ele, a taxa de câmbio efetiva entre o real e a moeda americana - patamar que seria o de equilíbrio, em que pesam os índices de inflação - ficou, em janeiro, em R$ 2,705. Ou seja, na cotação de ontem, a moeda brasileira ficou cerca de R$ 0,10 abaixo do que seria o seu ponto de equilíbrio.
- A sobrevalorização do real frente ao dólar é ruim para a economia, uma vez que reduz a competitividade dos produtos brasileiros lá fora - analisa.
Segundo Agostini, depois da especulação feita sobre as commodities no ano passado - o que fez o preço do aço explodir - e o petróleo no segundo semestre, agora são as moedas que estão no foco do mercado internacional.
- Assim como o real, o euro e o iene também estão sofrendo valorização. O mesmo efeito também pode ser observado nas moedas da Nova Zelândia e da Austrália. Isso porque existe um excesso de liquidez (dinheiro) no mercado internacional, o que deve se reduzir a partir do meio do ano, com o aumento da taxa de juros nos Estados Unidos.
A previsão dos analistas é que os títulos do Tesouro americano cheguem ao fim do ano com remuneração de 5% anuais, o que trará de volta investidores que hoje aplicam em papéis de emergentes.
Só ontem o dólar caiu 1,39% e, em todo mês de janeiro, a desvalorização da moeda americana chega a 1,65%. A queda da moeda americana se acentuou depois que o Tesouro anunciou a segunda captação de recursos lá fora. O lançamento inicial foi de US$ 1 bilhão, mas devido à procura dos investidores, a emissão pode ter chegado a US$ 1,250 bilhão, segundo dados divulgados pelo Ministério da Fazenda até a noite de ontem.
Os novos papéis emitidos têm prazo de 20 anos, o mais longo vencimento desde janeiro de 2004, quando o governo lançou US$ 1,5 bilhão em papéis de 30 anos. O governo ofereceu remuneração inicial de 8,95% ao ano, mas, segundo o mercado, pode ter diminuído para 8,9%. A operação foi realizada pelo Deutsche Bank e pelo UBS Limited. Em janeiro, o governo já havia emitido papéis soberanos no valor de 500 milhões de euros (cerca de US$ 650 milhões), por meio dos bancos BNP Paribas e Deutsche.
Os títulos emitidos em euros tiveram prazo de dez anos e vão pagar juros de 7,55% ao ano, o que significa uma remuneração 3,98% pontos percentuais acima dos títulos do Tesouro alemão de dez anos, referência no mercado europeu.
O plano do Tesouro Nacional, que assumiu a coordenação pela emissão de títulos no exterior este ano, era captar US$ 6 bilhões em 2005. No entanto, o governo já emitiu US$ 1,7 bilhão desse valor no ano passado. Restariam, portanto, cerca de US$ 4 bilhões para captar, dos quais US$ 1,5 bilhão já foram garantidos neste mês.
O governo emite títulos da dívida para captar recursos no exterior, mas os recursos não são usados para investimentos.
O destino do dinheiro é recompor as reservas em moedas estrangeiras do país ou pagar a dívida externa ou compromissos com organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI).
As emissões podem ser feitas em dólares, em euros ou em ienes. Assim como a dívida pública do governo aumenta cada vez que são vendidos papéis internamente para captar recursos, a dívida externa do país também cresce. Esses papéis costumam ser comprados por bancos e fundos de investimentos.
Todos os títulos do Brasil lá fora registraram valorização ontem. O principal papel da dívida externa do país fechou cotado a 102% do seu valor de face, alta de 0,12%. Já o Global 40 subiu 0,23%, a 115% do seu valor. O risco país estava ontem à noite aos 417 pontos.
Para o economista-chefe do Unibanco, Marcelo Salomon, a entrada de capitais estrangeiros no país é resultado do ganho de credibilidade do Brasil.
Segundo ele, embora o dólar esteja em um patamar baixo, ainda não afeta diretamente a competitividade dos produtos brasileiros.
- Em uma análise dos últimos 10 anos da taxa de câmbio do país, com o dólar a R$ 2,70, ainda havia uma depreciação do real de cerca de 10% frente ao dólar, o que significa que ainda há espaço para perdas.
Ele acrescenta ainda que com uma taxa de R$ 2,70, a perspectiva é que o superávit na balança comercial fique em US$ 24 bilhões.
Com agências