Correio Braziliense, n. 21148, 19/04/2021. Brasil, p. 4

 

Isolado como péssimo exemplo mundial

19/04/2021

 

 

Condutas como a do presidente Jair Bolsonaro, que inflamam a polarização do combate à pandemia, colaboram para a descoordenação e foram provadas como sendo prejudiciais na guerra contra a covid-19. Um estudo publicado na revista Science (Leia Palavra de especialista) afirmou que sem uma mudança de postura, o país será uma "ameaça à segurança da saúde global" ao concluir que a "combinação perigosa de inação e irregularidades" da resposta federal piorou a situação do Brasil em relação à doença.

Especialistas acreditam que a imagem do país já está associada a um mau exemplo de combate à crise sanitária. "O Brasil passa a ser o exemplo negativo das coisas, aquele que faz as coisas erradas, e isso, obviamente, dilapida um pouco a imagem legal que o Brasil tinha na década passada", acredita o pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional (FGV NPII), Leonardo Paz, que cita o episódio ocorrido no parlamento francês na última semana.

O primeiro-ministro da França, Jean Castex, provocou risos nos presentes ao citar a prescrição no Brasil da hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19. Ao anunciar a suspensão dos voos entre os países, Castex aproveitou para ironizar o deputado de oposição Patrick Hetzel, que questionava se o governo francês não iria fechar as fronteiras para proteger a população francesa da variante P.1, originada no estado do Amazonas.

Ao responder, o primeiro-ministro disse que Hetzel distorcia a realidade ao dar a impressão de que o governo não fazia nada e lembrou que foi justamente o deputado quem aconselhou o presidente da França a prescrever a hidroxicloroquina contra a doença. "Tem uma coisa que não fizemos: seguir suas recomendações. O senhor escreveu ao presidente da República em 2020 para aconselhar a ele que prescrevesse hidroxicloroquina. Ora, o Brasil é o país que mais a prescreveu", afirmou Castex.

Relevância
"O alvo não era o Brasil, mas o Brasil foi a piada para ele poder espetar o opositor da direita do governo francês", indica Leonardo. Além de virar piada e exemplo do que não fazer, o Brasil vai perdendo, aos poucos, a relevância que tinha no cenário mundial. O país ficou de fora do roteiro da primeira viagem à América do Sul de um diplomata sênior do presidente americano Joe Biden. "O país perde a oportunidade de qualquer tipo de tratativa, negociação, convênio, acordo de cooperação. Ou seja, perde qualquer instrumento de aproximação que poderia ser legal para o país de se acercar aos Estados Unidos e a outros países. Esse é um exemplo muito claro desse tipo de isolamento que o Brasil enfrenta", avalia.

Além disso, com notificações diárias da covid-19 em um patamar exorbitante, cada vez mais países aumentam as restrições à entrada de brasileiros. "Isso atrapalha as coisas a funcionarem. O brasileiro vai ter que viver de Zoom (aplicativo de videochamada) por enquanto, porque ele não consegue ir para lugar nenhum", constata o professor, que deixou de ir a dois eventos internacionais por se deparar com barreiras impostas ao país. Segundo um levantamento do site de viagens Skyscanner, há 151 nações com restrições fortes ou moderadas de voos oriundos do Brasil. (BL e MEC)