Título: O demônio de Garanhuns
Autor: Sérgio Pardellas e Sérgio Prado
Fonte: Jornal do Brasil, 11/03/2005, País, p. A3
Inspirado e com bom humor, Lula prometeu ''dar um show'' em uma pelada anunciada para amanhã, na Granja do Torto, contra o time dos irmãos Sócrates e Raí. Os craques , que brilharam no Corinthians (time do presidente) e São Paulo, respectivamente, estão produzindo um documentário sobre futebol, e convidaram o presidente a montar um time do governo e do PT para jogar contra a equipe deles.
- Vocês vão ver o demônio de Garanhuns jogando - disse, em referência à sua cidade natal.
O presidente comentava a reforma ministerial, recusando-se a antecipar as alterações previstas. Boleiro que é, Lula sabe que a surpresa da escalação contribui para o sucesso da partida. Ontem, deixou claro de que agiria como técnico de futebol, e só daria os nomes na ''hora do time entrar em campo'', repetindo um discurso proferido em 31 de dezembro de 2002, véspera da posse, quando todos insistiam em antecipar o ministério que estrearia com ele no Planalto.
O amistoso de sábado não é por acaso. Sempre próximo de alterações na equipe palaciana, seja por ''contusão'' ou ''deficiência técnica'', Lula procura na integração do esporte unir mais o seu grupo para evitar ruídos. No primeiro ano de governo, era comum ver o presidente reunir ministros e aliados na Granja do Torto para partidas de futebol e churrasco. Com a proximidade da primeira reforma ministerial, a prática foi se tornando mais rara.
Desde que assumiu o Planalto, o presidente promoveu a tabelinha dos sonhos. Bom na retórica - apesar de alguns tropeços polêmicos -, Lula procurou driblar a imprensa com frases de efeito usando o mundo da bola como metáfora da sua verdadeira equipe, a ministerial.
Ainda antes da posse, o presidente alertou Marcio Thomaz Bastos para que não se iludisse com os aplausos:
- Um centroavante que faz um gol de bicicleta é aplaudido, mas se o time adversário vira o jogo para dois a um, e ele perde um pênalti, passa a ser vaiado.
Discreto, Bastos seguiu os conselhos do presidente e passará sem sustos pela nova reforma ministerial.
Na primeira vez que precisou trocar seu time, Lula também recorreu a metáforas futebolísticas para agradecer aos que deixavam o governo:
- Embora o Pelé tenha sido o melhor do século, algumas vezes ele foi substituído. Nem por isso quem entrou era melhor do que ele. Tudo se deve à circunstância do jogo.
Provavelmente, terá de repetir o discurso semana que vem, quando anunciará nova reforma ministerial.