O Globo, n. 32051, 08/05/2021. País, p.4

 

 

Ramagem: Abin deve apurar uso de recursos federais

 

 

 

 

Membros da agência foram orientados a apurar possíveis casos de desvios em repasses a estados e municípios, interesse de Bolsonaro na comissão

 

Alvo de uma chamada para depor no TPI da Covid, o diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, defendeu que a agência levante informações sobre desvios de recursos destinados à pandemia pela União para estados e municípios, a tema de interesse do governo federal na comissão do Senado. Ontem, a revista "Crusoé" publicou que membros da agência em vários estados receberam orientações para apurar possíveis casos de corrupção na esfera local. Desde o início dos trabalhos do TPI, o governo tem buscado que a comissão amplie seu escopo e também investigue possíveis crimes cometidos por governadores e prefeitos. Os membros da oposição, no entanto, veem a medida como uma tentativa de tirar a ação do governo federal dos holofotes.

Em nota de Andm compartilhada pela Ramagem em suas redes sociais, a Abin afirmou que é sua responsabilidade planejar e executar as ações relacionadas à obtenção e análise de dados sobre fatos que influenciam a decisão e possíveis ações do governo federal. “A corrupção e o desvio de recursos públicos são comportamentos capazes de produzir a erosão das instituições, o empobrecimento da sociedade e o descrédito do Estado. Cabe à inteligência cooperar, com os órgãos de controle e com os governantes, na prevenção , identificação e combate à corrupção, em suas diversas manifestações, conforme o Decreto nº 8.793 / 16 ”, afirmou o órgão. Anteontem, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) entrou com pedido de convocação de sucursal ao CPI. O pedido deve ser aprovado pela comissão. A Ramagem é considerada próxima à família Bolsonaro. Já foi indicado para chefiar a Polícia Federal, mas sua nomeação foi suspensa pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. O pedido de Tasso veio depois que o presidente Jair Bolsonaro deu a entender que a pandemia do novo coronavírus seria parte de uma “guerra química”. “Esta é uma revelação muito séria com implicações para as relações internacionais e enormes repercussões até para a Paz Mundial. Sendo a Agência Brasileira de Inteligência a primeira fonte de informação ao presidente da República, é preciso convocar seu Diretor-Geral para divulgar, ainda que de forma sigilosa, as informações obtidas com os senadores ”, argumenta o tucano em seu pedido. Segundo a revista “Crusoé”, agentes da Abin foram orientados a buscar casos em fontes abertas, como sites de busca, e não utilizar o sistema da agência que permite a busca de dados sigilosos. Em nota, o órgão garantiu que cumprirá seu papel, mas ressaltou que respeitará os direitos individuais. “A Abin continuará cumprindo seu papel, estabelecido nas leis e decretos vigentes, com irrestrita observância dos direitos e garantias individuais, fidelidade às instituições e aos princípios éticos, que regem os interesses e a segurança do Estado”, afirmou a agência.