Título: Fim do ciclo de altas é dúvida
Autor: Luciana Otoni
Fonte: Jornal do Brasil, 17/03/2005, Economia & Negócios, p. A17

Mercado externo pode provocar novo aumento

O Banco Central confirmou a expectativa do mercado financeiro e promoveu o sétimo aumento consecutivo na Selic. O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu dar continuidade ao processo de aperto monetário, iniciado em setembro de 2004, e elevou a taxa básica da economia em 0,5 ponto percentual, para 19,25% ao ano. Esta é a taxa mais elevada desde setembro de 2003, quando a Selic foi fixada em 20%. Com o novo aumento, os juros reais da economia foram para 13,05% e continuam os maiores do mundo.

O comunicado do Copom seguiu o mesmo padrão dos anteriores. ''Dando prosseguimento ao processo de ajuste da taxa de juros básica, iniciada na reunião de setembro de 2004, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 19,25% ao ano, sem viés''.

Embora boa parte do mercado acreditasse que este aumento poderia ser o último, em virtude da ata da reunião do Copom de fevereiro, o presidente do Banco Fibra, João Rabello, é mais cauteloso.

- Com a deterioração do cenário externo, não descarto a possibilidade de novo aumento em abril - afirma.

Os primeiros sinais de continuidade do aperto monetário poderão ser decifrados na semana que vem, quando o Copom divulga a ata da reunião desta semana. Mas há quem aposte no mistério.

- O BC não deve dar sinais muito claros de que o ciclo de alta chegou ao fim, até por uma atitude de cautela - avalia Renata Heinemann, economista do Banco Pátria. - É mais prudente manter a porta aberta tanto para uma alta, como manutenção da Selic em abril e aguardar os dados que serão divulgados ao longo do mês.

O principal deles, segundo Renata, será o comportamento do câmbio.

- O dólar tem sido determinante para manter o controle da inflação e deverá ser observado de perto pelo BC no próximo mês - diz.

Na avaliação do mercado financeiro, no entanto, a decisão do Copom foi acertada. Além de fatores já conhecidos, como a rigidez da expectativa de inflação e os núcleos ainda altos, analistas agora citam também a deterioração do cenário externo como importante na definição dos juros internos.

- Desde a última reunião do Copom, os preços do petróleo subiram, o câmbio piorou um pouco e há possibilidade de altas mais fortes nos juros americanos, o que justifica em parte o novo aumento na Selic - diz João Rabelo. A alta do óleo tipo WTI, negociado em Nova York, entre as duas reuniões do Copom chegou a 13,90%.

Em relação ao dólar, Rabello acredita que, por enquanto, o patamar não preocupa.

- O dólar por volta de R$ 2,75 ainda não incomoda a inflação, mas é evidente que se esta alta se acentuar pode atrapalhar a convergência para a meta de inflação do BC de 5,1% em 2005 - diz. As instituições financeiras ouvidas pelo BC projetam um IPCA de 5,77% em 2005.