Correio Braziliense, n. 21184, 25/05/2021. Política, p. 4

 

Ponto a ponto - Eduardo Girão: “A sociedade não leva a CPI a sério”

Sarah Teófilo

25/05/2021

 

 

Ele diz ser independente, mas é visto como um dos integrantes da tropa de choque do governo na CPI da Covid. O senador Eduardo Girão (Podemos-CE) tem defendido as demandas do Executivo na comissão, lançando muito mais elogios do que críticas ao Planalto e cobrando, massivamente, sempre que tem alguns minutos de fala, que o colegiado investigue estados e municípios, com o intuito de tirar o foco do governo federal.

Em entrevista ao Correio, Girão afirmou que a CPI já começou de forma errada e critica o relator, Renan Calheiros (MDB-AL), a quem acusa da parcialidade e de conflito de interesses. Veja os principais trechos da entrevista com o senador:

Contradições de Pazuello na CPI

“Tudo isso a gente vai precisar receber alguns documentos para ver, mas o mais importante é que ele não se negou absolutamente a falar. Falou tudo, mesmo com habeas corpus. Apenas quis se proteger da tremenda agressividade que o relator tem demonstrado nas últimas sessões. Ameaça prender, induz resposta, intimida as pessoas. Para mim, o relatório já está pronto, né?”

Parcialidade o relatório

“Está claro, porque é um palanque político que nós estamos vendo aqui no Brasil, infelizmente, em cima de tantas mortes, tantas pessoas sofrendo. Saúde pública, desemprego, fome, e a gente não está olhando para estados e municípios, não está olhando para a Polícia Federal, que eu queria trazer (à CPI), porque a população está querendo o equilíbrio, né? É uma CPI parcial. Infelizmente.”

Alegações sobre rise de Manaus

“Contradição por causa de três dias? Observe bem o que ele disse. A partir do momento que ele chegou e disse que identificou (o problema relativo ao oxigênio), começou a tomar as medidas. É disso que eu vou precisar de documentos. Por exemplo, a Venezuela ajudou, não foi? E os Estados Unidos, como foi essa história dos Estados Unidos? (avião oferecido pelos EUA ao Brasil para transportar oxigênio) Ele diz uma coisa, os senadores dizem outra. A gente precisa comparar com documentação.”

Blindagem a Bolsonaro

“Como era o comandante do Ministério da Saúde, eu vejo que, de alguma forma, ele agiu. Em 1º de maio, quando teve o calote do Consórcio Nordeste, o que aconteceu? Eu fui correndo lá no Ministério da Saúde, o ministro era o (Nelson) Teich, e ele (Pazuello) era o secretário-executivo. Ele estava coordenando essa logística. Cheguei lá, pedi: ‘Pelo amor de Deus, aconteceu agora um calote no Ceará.’ Só para o Ceará, se não me engano, eram 40 respiradores. ‘O senhor consegue isso? Nos ajude, porque o povo está precisando’. Imediatamente, ele não perguntou qual era a ideologia nem tem que perguntar isso, e disse: ‘Vou ligar agora aqui para resolver’. Pegou o telefone, já ligou para o secretário de Saúde lá e disse: ‘Estão mandando os respiradores’. Fiquei acompanhando aqui, do dia 1º ao dia 3, até que enviasse esses respiradores. Então, foi rápida a resposta que ele deu para Ceará, Alagoas e Rio Grande do Norte. Eu vejo que ele (Pazuello) tinha autonomia. Blindagem é uma coisa muito forte. Mas o que eu vejo de blindagem é para governadores e prefeitos.

Ação da base para desviar foco

“Aí tem de perguntar à base. Eu sou independente, não participo de nenhuma reunião governista nem me convidam, porque sabem que eu não sou. Eu não faço o jogo deles.”

Foco em estados municípios

“O requerimento é meu. É uma convicção minha, porque eu sou testemunha de que dinheiro não faltou. Todo dinheiro que era pedido aos estados e municípios ia (do governo federal para os outros entes federativos).”

Eventual omissão o Executivo

“Isso é que a gente vai descobrir na CPI. Eu pedi as aglomerações do presidente da República. O requerimento é meu dessas saidinhas dele, aqui, sem máscara, causando aglomeração. O presidente até ficou chateado com isso. O problema é dele. Eu não faço o jogo de ninguém.”

Desgaste do governo om a comissão

“Acho que a sociedade não está levando esta CPI a sério. Viu que é um palanque político, ela percebe claramente os interesses disso, o relator que tem um filho que é governador (Renan Filho, gestor de Alagoas). Eu não vou nem falar das outras coisas. Mas ali há um conflito de interesse direto. Então, isso é uma coisa que vai perseguir essa CPI, esse flagrante conflito de interesse, que fica cada dia mais parcial. Você vê a maneira como já tem um culpado e inocente para ele (relator). Ele já deu entrevistas antes de começar a CPI dizendo que esse é um governo genocida. Eu tentei evitar (a indicação do relator). (A CPI) Já começou errada.”

Risco de acabar m pizza

“Não digo que vai acabar em pizza, porque ele (Renan Calheiros) já tem, na minha concepção, ele já tem um relatório desde o início. Está encaminhado.”

Relator culpar Bolsonaro

“Eu vejo isso claramente. Para mim, virou algo pessoal. Ele já tem um problema pessoal com o presidente da República. Era político e, hoje, é pessoal. Você vê como está a animosidade dele com os filhos (de Bolsonaro), com o Flávio. Os dois lados estão errados. O presidente (Bolsonaro), o Flávio e o Renan. Virou pessoal.”