Título: Ministros devem ficar em Brasília
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 19/03/2005, País, p. A3

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá dedicar o fim de semana para se debruçar sobre os últimos lances da reforma ministerial. Além de cancelar a ida a Recife, onde participaria hoje de um ato comemorativo dos 25 anos do PT, o presidente pediu a ministros de pastas consideradas chaves no quebra-cabeça da reforma na Esplanada para permanecerem em Brasília. O ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, por exemplo, pule de dez para ser remanejado para o Ministério da Saúde, no lugar de Humberto Costa, cancelou uma viagem a Pernambuco, onde cumpriria compromissos oficiais, atendendo a uma solicitação do presidente. O ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, viajou mas com prazo para retornar. Foi ontem pela manhã para São Paulo e voltou no início da noite.

A senadora Roseana Sarney (MA), cotada para o Ministério das Cidades, também ficará em Brasília de prontidão ao lado do telefone à espera do chamado do presidente. Sobre Roseana, circula no PT duas versões: uma de que Lula teria ''engolido'' a indicação da ministra, dona dos mais fortes padrinhos da Esplanada. E a outra de que Lula a receberia no Ministério de bom grado, de olho numa eventual composição em 2006. O potencial eleitoral de Roseana seria comprovado por recentes pesquisas do Planalto. Durante uma sessão no Senado essa semana, a senadora se limitou a dizer que ''ainda não sabia se seria ministra''.

A expectativa é de que o novo arranjo do Ministério seja anunciado na próxima semana. Entre hoje e amanhã, Lula vai examinar o mais novo cenário apresentado pelas lideranças partidárias. Pelo acordo celebrado na noite de quarta numa reunião entre o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP); o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) e o senador José Sarney (PMDB-AP). O PP ficaria com o Ministério das Comunicações (deputado Ciro Nogueira), o PMDB com a Integração Nacional (Eunício Oliveira) e Roseana com as Cidades. O presidente também pretende definir a situação do ministro da Coordenação Política e se a pasta será vinculada à Casa Civil.

O maior empecilho para a conclusão da reforma ainda é o PT que, embora dissemine o contrário, resiste em abrir espaço aos aliados. Hoje, enquanto Lula elucubrará sobre os últimos detalhes da reforma na Granja do Torto, o PT, no encontro em Recife, irá intensificar a pressão pela permanência sob o controle do partido das pastas da Saúde e Cidades. E pela substituição do ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, por um petista, de preferência o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP).

No contra-mão do salve-se quem puder da Esplanada, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, teria ameaçado durante a semana deixar o governo caso não sejam aprovados os vetos à Lei de Biossegurança, essenciais à autonomia de sua administração. O texto reserva à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) poder para liberar a produção e a comercialização de transgênicos sem a necessidade de ouvir antes o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).