Título: Europeus estendem a mão a Moscou
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Fonte: Jornal do Brasil, 19/03/2005, Internacional, p. A9

Em encontro, Putin, Chirac, Schröder e Zapatero mostram entendimento sem precedentes e falam sobre ''Grande Europa''

PARIS - Os dirigentes de Espanha, França e Alemanha estenderam a mão ontem, em Paris, ao presidente russo, Vladimir Putin, visando a uma maior cooperação política e econômica, apesar das questões que ainda causam polêmica, como Chechênia, Irã e China. As relações russas com o bloco estão instáveis desde a expansão da UE para incluir vários países ex-comunistas.

Depois de uma reunião de 90 minutos, Putin, o presidente francês, Jacques Chirac, o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero e o chanceler alemão, Gerhard Schröder, mostraram uma harmonia e entendimento sem precedentes.

Os quatro discutiram temas variados, como o conflito entre israelenses e palestinos, o Iraque, a situação da Ucrânia, a crise no Líbano, o programa nuclear iraniano, a venda de armas para a China e a Constituição européia, entre outros.

Em 10 de maio, em Moscou, será realizado o encontro de cúpula União Européia-Rússia, no qual se espera o estabelecimento de objetivos concretos para a aproximação das duas regiões.

- Vemos na relação entre Europa e Rússia a chave para a instauração da paz, da democracia e do estado de direito no continente - disse Chirac à imprensa depois do encontro.

Na cúpula de Moscou, os países desejam avançar em questões como a livre circulação de pessoas, cooperação econômica, respeito aos direitos humanos, fortalecimento da cooperação entre universidades e outras instituições científicas e culturais, e ação conjunta pela paz internacional.

Ao falar de uma ''Grande Europa'', Putin ressaltou que Moscou conta com os ''companheiros'' para atingir objetivos econômicos e políticos.

- Queremos uma associação duradoura com a Europa. Gostaríamos de viver em um continente próspero e sem divisões.

Os líderes europeus tentam, dessa forma, fechar o capítulo de desentendimentos e atritos nas relações bilaterais nos últimos tempos.

No encontro foram discutidos temas polêmicos, como a questão da Chechênia - onde na semana passada foi assassinado o presidente separatista Aslan Maskhadov -, o respeito aos direitos humanos, à liberdade de imprensa e a ingerência russa na Ucrânia.

Os dirigentes europeus preferiram não convidar o presidente dos Estados Unidos, George Bush, que recentemente acusou Putin de estar promovendo retrocessos na democracia russa.

Sobre o Irã e seu polêmico programa nuclear, os governantes ressaltaram que os esforços coordenados da Europa para impedir que o país fabrique a arma atômica e os acordos entre Moscou e Teerã sobre energia nuclear civil ''não são contraditórios''.

- O Irã deve demonstrar que não está tentando obter a arma nuclear - afirmou Putin, cujo país firmou no mês passado acordos com Teerã para entrega de combustível para centrais nucleares iranianas.

Washington suspeita que o Irã deseja fabricar uma bomba atômica e vem pressionando a Rússia a pôr fim a sua cooperação.

Além disso, falou-se também sobre o fim do embargo da venda de armas à China, idéia defendida pelos europeus, mas que não causa muito entusiasmo nos russos.

- Sinceramente, vendemos muitas armas para a China. Quanto menos competidores, melhor para nós - brincou Putin, afirmando depois que não teria problema algum em chegar a um acordo com os europeus sobre o mercado chinês.