Título: Para Delfim, saída é corte de gastos
Autor: Mariana Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 21/03/2005, Economia, p. A17
Para o ex-ministro Delfim Netto, discutir o pagamento de juros é inútil e pode provocar a perda de governabilidade. - Isso não pode ser discutido seriamente no Brasil. No mundo real, as coisas não funcionam assim - diz.
A saída, segundo ele, passa por uma política econômica mais responsável, por meio do cortes paulatinos de gastos.
- Defendo uma meta similar ao que podemos chamar de déficit nominal zero. Uma indicação de que as contas públicas caminham para o pleno equilíbrio fiscal. Isso é possível e absolutamente necessário - opina.
Para Delfim, um corte nos gastos públicos equivalente a 1% do PIB por ano, ao longo de seis anos, já bastaria para mostrar ao mercado que o Brasil pode e deve pagar juros menos escorchantes do que os 13% ao ano atuais, que correspondem somente à parte que está acima da inflação, os chamados juros reais.
- A medida implicaria congelarmos o superávit primário e reduzirmos as despesas não financeiras, tendo como objetivo que os juros aterrissem sobre a meta, o que faria com que o primário também pudesse cair. Trocando em miúdos, com o corte de gastos públicos, o mercado passaria a exigir do governo um prêmio de risco (taxa de juros) mais baixo - sugere.
No entanto, o ex-ministro admite que metas de corte de despesas não dão muito certo em mandatos quando chegam à reta final.
- Não seria de bom tom adotar a medida em um ano eleitoral. A experiência que temos é que, nos últimos 10 anos, as despesas aumentam nos anos pré-eleitorais. Posso garantir que uma meta nominal não tem simpatia da Fazenda - comenta.
O secretário do Tesouro, Joaquim Levy, explica que a adoção de uma meta de déficit nominal zero no curto prazo implicaria uma extrema dificuldade de gestão das contas públicas. Isso porque a economia a ser alcançada (superávit primário) deve variar junto com os juros. Além de exigir um superávit primário extremamente alto, é de difícil aplicação.
- Isto aumentaria a volatilidade da despesa primária, como reflexo do fato de que a variação dos juros no Brasil ser maior do que em outros países - admite. - As razões para esta variação dos juros estão sendo discutidas e parecem estar associadas desde o fato de a Selic não ter uma abrangência muito grande (a exemplo da explosão do crédito com desconto em folha, que estimula o consumo que a Selic tenta coibir) até ao fato de que nossa dívida é bem grande, assim como o prêmio de risco, além de os choques externos tenderem a ter repercussão acentuada.