Título: Pacientes com câncer pedem socorro
Autor: Waleska Borges
Fonte: Jornal do Brasil, 19/03/2005, Rio, p. A13

A guerra entre a Prefeitura do Rio e o governo federal pode fazer 86 vítimas inocentes: pacientes da unidade HC III do Instituto Nacional do Câncer (Inca) ¿ conhecida anteriormente como Luiza Gomes de Lemos ¿ que ficariam sob a tutela do município para receber tratamento de radioterapia estão vivendo na incerteza, já que a intervenção federal retirou do município a gestão plena dos recursos do Sistema Único de Saúde (SUS). Foi a terceira vez em três meses que o Inca, unidade federal, pediu ajuda ao município do Rio para alocar pacientes à espera de tratamento para o câncer. Desta vez, o procedimento foi prejudicado e, se antes as primeiras radioterapias estavam marcadas para maio, junho e julho, com a transferência da tarefa para a secretaria estadual de Saúde os doentes ficarão no aguardo. O que é pior: todos estão com pelo menos cinco meses de defasagem no tratamento radioterápico. ¿ Os pacientes que vão para a radioterapia geralmente estão em um alto grau de replicação celular, em estado que requer cuidados. A demora não é boa. O Inca nos fez a mesma solicitação no ano passado e em janeiro, e nós conseguimos o tratamento no Hospital Universitário Pedro Ernesto e no Hospital Clementino Fraga Filho ¿ diz o oncologista Roberto de Freitas Vincent, diretor da Central de Regulação do Município do Rio de Janeiro. De acordo com Vincent, a prioridade é transferir para entidades filantrópicas ou hospitais públicos universitários os pacientes que o Inca não consegue atender. O restante da demanda é encaminhado a clínicas da iniciativa privada, com dinheiro do SUS.

¿ Como no meio disso tudo o município perdeu a gestão plena do SUS, o processo se tornou mais lento ¿ lamentou Vincent, que colocou a central de regulação à disposição do Estado.

O diretor do Departamento de Atenção Especializada do Ministério, Arthur Chioro, demonstrou irritação com a informação de que os pacientes teriam que ser transferidos para a secretaria estadual de Saúde ¿ o que ainda não foi feito.

¿ Não vamos deixar ninguém sem atendimento. Vou ligar hoje (ontem) mesmo para o secretário (estadual de Saúde) Gilson Cantarino e providenciar o atendimento a estes 86 pacientes ¿ disse Chioro, classificando como ¿tortura¿ a ausência de destino certo para os pacientes com câncer.

¿ O que era antes da Prefeitura do Rio, agora passa a ser do estado. Não tem mistério. Primeiro a secretaria estadual vai procurar vagas na rede pública, e se for o caso vai contratar serviços privados ¿ afirmou Chioro.