Título: Partido de Severino tem dia de frustração
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 23/03/2005, País, p. A5
Presidente da Câmara ironiza a perda de ministério e recua
Agência Brasil Irônico Severino Cavalcanti tentou minimizar sua participação no cancelamento da reforma
BRASÍLIA - A cúpula do PP passou o dia inteiro de ontem tentando passar a imagem de que não estava possessa com o Planalto. Os principais líderes da legenda - o triunvirato Severino Cavalcanti (presidente da Câmara), Pedro Corrêa (presidente do partido) e José Janene (líder do partido na Câmara) - adotaram o discurso irônico e sarcástico para disfarçar o incômodo de terem ficado fora da Esplanada. O PP sabia desde segunda que o discurso do presidente da Câmara no Paraná, ameaçando deixar a bancada governista caso o Planalto não nomeasse Ciro Nogueira (PP-PI) para o Ministério das Comunicações, havia soado muito mal aos ouvidos do presidente Lula.
- Se sou o responsável pela decisão quanto à reforma, sou um homem feliz. Mostrou que eu tenho força - disse Severino que recuou também das ameaças de ser oposição ao governo.
- Oposição? Tá doido? Eu gosto é de governo - disse.
Já o ex-ministeriável, o deputado federal Ciro Nogueira (PP-PI) afirmou que o processo que resultou na sua exclusão do ministério foi ''muito ruim''.
- Para o país, para o governo, para os políticos, o processo de reforma ministerial foi muito ruim, muito desgastante -, afirmou. Ele era cotado para a pasta das Comunicações.
Nogueira, apesar disso, afirmou estar ''sereno''. Disse que não foi surpreendido pela decisão do presidente Lula.
- Eu já esperava. O presidente Lula fez o que eu achei que fosse fazer após as declarações do presidente Severino Cavalcanti. Mas é bom eu ficar quieto e não falar muito sobre isso - disse.
A cúpula do PP ensaiou um discurso para fora, que divergia com a avaliação interna. Em pleno Salão Verde da Câmara, o líder José Janene (PR) afirmava que Severino havia cometido um trocadilho ao cobrar a presença de Ciro Nogueira no Ministério.
- Levar aquele discurso à sério é o mesmo que levar à sério o discurso do presidente Lula em Vitória, quando citou as privatizações do governo Fernando Henrique - comparou.
A avaliação interna, contudo, era de que, se Lula mantivesse a disposição de dar o Ministério para o PP, ficaria desmoralizado. Na manhã de ontem, Dirceu ligou para Janene avisando que a reforma ministerial estava encerrada e que o quinhão do PP estava descartado. A análise também leva o PP a bater no PMDB.
- Ficamos de fora porque o governo fracassou na negociação com o PMDB. De repente, os peemedebistas passaram a morrer de amores pelo Ministério das Comunicações. Coisas de paixão - declarou Janene, mordaz.
Os líderes do PP foram almoçar na casa de Janene ontem. Para melhor digerir o golpe, comeram costela de porco assada e couve-flor, acompanhados de uma salada bem temperada. O ex-ministeriável Ciro Nogueira (PP-PI), que desapareceu da Câmara, compareceu ao almoço, mas ficou calado o tempo todo. O presidente nacional da legenda, Pedro Corrêa (PE), cutucou o Planalto.
- Falamos com o Dirceu umas cinco, seis vezes. Falamos também com o presidente Lula. Que reforma extraordinária ele fez, hein? - declarou Corrêa.
Janene, contudo, garantiu que a frustração não se reverterá em uma postura de oposição na Câmara.
- Continuaremos apoiando os projetos bons para o Brasil e votando contra iniciativas desastrosas, como a MP 232 - prometeu.