Correio Braziliense, n. 21229, 09/07/2021. Política, p. 3

Senadores reagem à "intimidação"
09/07/2021



O envolvimento de militares nas apurações da CPI da Covid tem provocado uma crise entre Poderes da República. Depois de o Ministério da Defesa, chefiado pelo general Walter Braga Netto, enviar uma nota repudiando uma declaração do presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), o senador disse, ontem, que não aceitará ser intimidado.

“Eu acho que a nota é um pouco desproporcional para aquilo que todo mundo assistiu. Eu tenho conhecimento profundo da importância das Forças Armadas na minha região. Fui governador, tive oportunidade de conviver com comandantes na Amazônia. É muito fácil ser general, ser oficial aqui em Brasília”, destacou. “Vocês não têm ideia do que eles passam na Amazônia, nas fronteiras. O respeito que eu tenho por eles está evidenciado. Em momento algum eu acuso ninguém, nem eles, nem ninguém. Eu tenho tido comportamento de evitar juízo de valor, e não faria isso com as Forças Armadas. Eu só não aceito que me intimide.”

Na quarta-feira, Aziz afirmou que as FAs devem estar muito envergonhadas com o surgimento de nome de militares na comissão e que “membros do lado podre das Forças Armadas estão envolvidos com falcatrua dentro do governo”. Horas depois, em nota, os chefes das Forças e o ministro Braga Netto disseram que a declaração do senador “atinge as Forças Armadas de forma vil e leviana, tratando-se de uma acusação grave, infundada e, sobretudo, irresponsável”.

Ao enfatizar que não aceitaria intimidação, o senador rebateu. “Isto aqui é o Congresso Nacional. E quando intimidam um membro que está presidindo uma CPI tão importante é porque pode ser que alguma coisa tenha desagradado. Mas tenha certeza de que a nota não é pelas minhas falas sobre as Forças Armadas, deve ser por outras coisas”, frisou.

O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), concordou. “Tenho certeza de que a obediência do conjunto das Forças Armadas não é a qualquer inquilino de plantão do Palácio (do Planalto), mas à Constituição e à pátria que juraram obedecer, que juraram, inclusive, combater os crimes de corrupção que venham de quem vier, sejam quais forem os responsáveis”, ressaltou.

Quem também se manifestou foi o relator do colegiado, Renan Calheiros (MDB-AL). Ele disse que a CPI vai continuar as investigações, independentemente de os alvos serem militares ou civis. “Esta comissão parlamentar de inquérito, que é uma instituição da República, não pode ser ameaçada sob pretexto nenhum. Nós estamos investigando e retirando a máscara de um esquema que funcionava no Ministério da Saúde e que proporcionou o agravamento do número de mortes de brasileiros em função da covid”, enfatizou.

Calheiros frisou que as Forças Armadas devem ser respeitadas pelo importante papel na formação do país, mas que não devem tentar intimidar o Legislativo. “Não podem confundir o nosso papel nem achar que vão nos intimidar. Nós vamos investigar, haja o que houver”, declarou.

O Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), procurou serenar os ânimos. Ele conversou, também ontem, com Braga Netto. Nas redes sociais, o parlamentar disse que houve um mal-entendido sobre declarações de Aziz a respeito do envolvimento de militares em suspeitas de irregularidades no Ministério da Saúde.

“Deixei claro o nosso reconhecimento aos valores das Forças Armadas, inclusive éticos e morais, e afirmei, também, que a independência e as prerrogativas de parlamentares são os principais valores do Legislativo”, escreveu Pacheco. “O episódio de ontem (quarta), fruto de um mal-entendido sobre a fala do colega senador Omar Aziz, presidente da CPI, já foi suficientemente esclarecido, e o assunto está encerrado.”