Título: Ministério faz nova convocação
Autor: Ana Paula Verly
Fonte: Jornal do Brasil, 25/03/2005, Rio, p. A13

Baixos salários e medo de contrato temporário fazem com que profissionais de saúde percam interesse pelo serviço

Depois de uma tentativa frustrada de convocar 1.140 profissionais de saúde para preencher vagas nos seis hospitais sob intervenção federal no Rio e no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), o Ministério da Saúde lança, no domingo, mais uma convocação. Desta vez, serão chamados quase três mil concursados para preencher cerca de 700 vagas - uma proporção de quase quatro profissionais para cada posto de trabalho. - Apenas 25% dos chamados se apresentaram. Nossa expectativa era de que este número fosse maior - lamentou o ministro, que atribuiu o desinteresse dos profissionais ao fato de o contrato ser de seis meses e aos baixos salários.

- O contrato temporário nem sempre é uma coisa estimulante. As pessoas têm medo por acharem que vão sair do banco de concursados, o que não vai acontecer. Se os valores de remuneração fossem melhores, poderíamos atrair mais gente - disse Costa, que visitou ontem à tarde o hospital de campanha da Marinha, no Campo de Santana.

O presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze, aponta a validade do concurso, que vai até o segundo semestre, como um dos motivo da baixa procura:

- O banco de concursados do Estado já completou quatro anos. Muitos concursados já tocaram adiante suas vidas. Para eles, romper com uma situação para assumir um contrato temporário é trocar o certo pelo duvidoso - explicou.

Segundo Darze, o valor do salário e as condições de trabalho também agravam o desinteresse.

- Os salários estão defasados no mercado. Qualquer gestor tem dificuldade de suprir o déficit de pessoal com o que é oferecido - disse Darze. - Além disso, eles têm consciência da grande demanda de trabalho e sabem que o cenário não vai mudar da noite para o dia - completou.

Darze lembrou ainda a ''inconstância'' no cenário político.

- O ambiente ainda está confuso por causa da disputa política, cujo desenrolar agora se dá na Justiça. Os médicos temem o fim da intervenção e, conseqüentemente, o fim do contrato.

Os contratados vão receber salários que terão como base a última referência da carreira da Seguridade Social e gratificações. Para os médicos, que terão jornada de 24 horas de trabalho semanais, a remuneração é de R$ 1.916,98. Para os demais profissionais, que atuarão em regime de 40 horas, os salários são de R$ 1.597,49 (nível superior); R$ 1.024,18 (formação técnica); e R$ 688,52 (auxiliares de enfermagem).

Um novo edital também está sendo preparado, em parceria com o Hospital Estadual Pedro Ernesto, para contratação de médicos especialistas.

- Vamos criar um banco de pessoas que serão selecionadas por currículo (títulos) para suprir categorias que não constam nos bancos concursados - afirmou a secretária de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde do Ministério, Maria Luíza Jaege.

Para Jorge Darze, a extensão da carga horária dos profissionais da rede federal - que têm jornada semanal de 20 horas - em mais 20 horas por semana, prevista em lei federal de 1997, ajudaria a resolver o déficit de pessoal nos hospitais.

- Médicos experientes e que conhecem a rede pública pleiteiam essa decisão. Em junho do ano passado, entreguei uma lista de nomes ao ministro Humberto Costa. Essa proposta disponibiliza de imediato 800 médicos para atender a população - sugere Darze, lembrando que a lei foi aprovada em função da carência de pessoal enfrentada pela rede pública federal na época.