Título: Um país em busca da verdade
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 28/03/2005, Internacional, p. A7
Ataques contra cristãos e falhas na investigação sobre morte de Hariri reforçam clamor popular
BEIRUTE - Os libaneses comemoraram a Páscoa exigindo que o governo do presidente Emile Lahoud, pró-Síria, demita todos os chefes da segurança, medida também exigida pela oposição após o atentado de sábado em Beirute, o terceiro contra alvos cristãos em semanas. Em um sinal do nível das tensões na capital libanesa, as palavras ''al haqiqah'', (verdade, em árabe) estão por toda parte, estampadas em letras azuis em muros, cartazes e nos vidros dos carros. A população também usa fitas dessa cor nas lapelas.
Peritos foram a Sad Bauchrie, distrito industrial de Beirute, onde um carro-bomba explodiu sábado, deixando seis pessoas feridas, segundo o juiz das investigações, Jean Fahd. Havia informação de dois mortos, mas não foi confirmada.
O magistrado disse também que foram usados 30 kg de explosivos e não 50 kg, como a polícia calculou. O local do ataque virou um campo de batalha, com vários prédios e casas destruídos. A polícia só permitiu a passagem dos comerciantes afetados para cálculo de danos. O atentado foi o terceiro contra um bairro cristão em 10 dias. Os dois anteriores, em New Yeide e em Kaslik, causaram três mortes e deixaram 15 feridos.
- Temos duas alternativas. Ou vamos em direção à liberdade, à independência e à soberania, que é o que deseja a maioria dos libaneses, ou em direção aos distúrbios, provocados por aqueles que não querem o bem do Líbano - disse o patriarca maronita Nasrallah Sfeir, um importante crítico da presença síria em território libanês.
A oposição acusa a Inteligência sírio-libanesa de estar por trás dos ataques, realizados sempre em horários de pouco movimento, mas com uma carga de explosivos suficiente para causar pânico e muitos estragos. A comunidade cristã lidera a campanha contra Damasco.
- Esperávamos isso, uma vez iniciada a retirada dos soldados sírios - afirmou o general exilado Michel Aun à rádio Oriente. - Mas a libertação é irreversível e a unidade nacional intocável. Esperamos que em breve se descubram quem são os defensores da ocupação e as pessoas que dependem dos serviços sírio-libaneses - acrescentou Aun.
A imprensa local reflete o nível de cobrança popular e já adianta que as primeiras demissões sairão em breve. A rede NTV, pró-Lahoud, mudou sua linha editorial e há 48 horas iniciou violenta campanha contra o procurador do Estado e ministro da Justiça, Adnan Adum, e os chefes dos serviços de Segurança, acusando-os de ''corrupção e negligência''.
Já o jornal Ad Diyar ressaltou que as demissões são a melhor forma de debilitar o poder sírio no país:
''Damasco perderá a influência após a destituição dos chefes de segurança e com a investigação internacional do assassinato do ex-premier Rafik Hariri, que o governo decidiu aceitar''.