Título: A ponte que cai
Autor: Newton Pereira Carvalho
Fonte: Jornal do Brasil, 27/03/2005, Outras Opiniões, p. A13
O recente acidente na ponte sobre o Rio Capivari na BR-116, interrompendo a mais importante rodovia do país em termos econômicos, era mais do que previsível. Há muitos anos, como tenente da Arma de Engenharia do Exército, trabalhava num batalhão em Lages-SC que foi incumbido da construção de uma ponte sobre o Rio Canoas, parte de uma nova ligação ferroviária do Sudeste com o Sul do país. Nessa construção havia um sério obstáculo: as enchentes periódicas e inopinadas que colocavam em risco o escoramento de madeira que apoiaria a concretagem.
As enchentes ocorriam mesmo com tempo firme e muito sol, já que o Rio Canoas nasce na Serra do Mar, onde chuvas torrenciais localizadas causam desbarrancamentos, carreando vegetações e árvores de grande porte. Foi um grande desafio. Terminada a obra, passei a dirigir a construção da nova ponte rodoviária sobre o Rio Pelotas, na BR-116, bem na divisa dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
A obra ultrapassara a fase mais crítica, inclusive a do alinhamento, porque na direção Norte-Sul havia uma curva à direita, uma tangente e outra curva à esquerda, ambas com grande inclinação. Nessa ocasião, antigos pescadores apontaram, numa elevação junto às margens, marcas de enchente ocorrida nos anos 20, cerca de 2m acima da cota da ponte. Informei aos superiores e registrei no diário da obra. A decisão foi continuá-la, sendo dado pouco valor à informação.
Poucos anos depois, um ônibus parou junto à ponte, que estava pouco visível, devido à cerração. Um passageiro, engenheiro civil, saltou e adentrou a ponte, cujo piso já estava submerso. Logo a seguir, o tabuleiro de duas mil toneladas ''navegou'' com o engenheiro algumas centenas de metros, derrubando os pilares. A ponte antiga desapareceu, ficando interrompida a ligação rodoviária para o Rio Grande do Sul, já que a BR-101 ainda não alcançava aquele Estado. Emergencialmente, foi adaptada ponte metálica de equipamento do Exército, que permite tráfego em sentido único, precedendo a construção de outra ponte em vão livre e a grande altura.
As notícias que se repetem sobre acidentes com pontes e aterros têm origem numa única causa: o desconhecimento e/ou desrespeito pela natureza. Assim, por exemplo, abrem-se crateras nos aterros das rodovias porque estas, cortando o fluxo natural das águas de uma bacia de córregos ou riachos, exigem a confecção de bueiros,para dar vazão às águas, em face de chuvas intensas.
A mesma responsabilidade deve ser atribuída às turmas de inspeção e conserva pertencentes às residências dos DERs, que percorrem trechos das rodovias em poucos dias, realizam desobstrução de valetas de drenagem e de bueiros e retiram vegetação que se emaranha nos pilares de pontes. Quando da ocorrência de problemas de maior vulto, como em pontes grandes, devem informar ao chefe da residência para as devidas providências, com o emprego de equipamentos adequados.
Salta aos olhos de qualquer motorista que percorra nossas rodovias que isso raramente ocorre hoje, mesmo nas vias privatizadas. O caso da BR-116 entre São Paulo e Curitiba é dos mais graves. A estrada, inaugurada ao final da década de 60, foi fechada por um ano para o reparo de grandes falhas técnicas - como a aterros não consolidados, saias muito abruptas, cortes com taludes de inclinação muito vertical e drenagem insuficiente.
O episódio recente do desabamento parcial da ponte dessa rodovia, próxima a Curitiba, não se enquadra nas condições extremamente difíceis aqui apresentadas. A ponte situava-se numa represa, praticamente sem correnteza, e o aterro não represava, logicamente, avalanche de água, pois qualquer excesso de chuva junto às margens era carreado para a represa.
O desabamento do aterro longitudinalmente sobre a ponte pode ser explicado por uma ou mais das seguintes circunstâncias: recalque por falta de compactação na construção, com grande infiltração de água; terra inadequada, pois terras, especialmente as vegetais, têm forte teor higroscópico (absorção de água); falta de contenção de pedras junto ao encontro; inexistência de cortina no encontro da ponte; ausência de proteção da saia do aterro com grama ou valeta.
Mesmo que ocorressem todas estas falhas, é forçoso reconhecer que foi um processo paulatino em que houve longa ausência ou omissão de turmas de inspeção e conserva, ou de seus chefes. O desabamento ocorrido exatamente na entrada do caminhão sugere que a estrutura da ponte já estivesse comprometida, não resistindo ao natural empuxo horizontal, ao que se associou o aterro. Compare-se com o acidente do Pelotas, onde encontros e aterros não foram afetados, apesar da força transversal do rio.
As hipóteses apresentadas pela imprensa são insuficientes, mas a declaração de autoridade ligada ao DNIT de que não ocorriam precipitações pluviométricas como aquela desde 1940 é mais um atestado substantivo em favor da argumentação aqui apresentada.
Como vemos, a natureza é sábia, pois fornece todo o material de que o homem necessita para vencer seus obstáculos} Mas dele cobra o respeito às suas leis. Por isso, a par de produzir tecnologia que lhe permita desenvolver obras para o progresso, o homem tem que dominar a ciência inserida na natureza que é obra divina e, portanto, sábia.
Tanto no episódio da ponte do Rio Pelotas como neste recente do Rio Capivari, além das falhas certas ou prováveis, sem duvida, houve desprezo ou esquecimento das informações de homens simples e humildes que tinham conhecimento da região, e dos funcionários da Polícia Rodoviária. O lastimável é que só a tragédia, mais uma vez, veio ensinar lição elementar.
*Newton Pereira Carvalho é Coronel de Engenharia Reformado e pós-graduado em Projetos de Transportes pelo Banco Mundial