Título: Utopias: para quê?
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Fonte: Jornal do Brasil, 27/03/2005, Outras Opiniões, p. A13

No debate sobre as utopias, no Fórum Social Mundial, em janeiro deste ano, em Porto Alegre, o português José Saramago e o uruguaio Eduardo Galeano esgrimiram posições aparentemente contrapostas. O escritor português urgia pela necessidade de abandonar as utopias, não em nome do mundo tal qual ele é, mas de transformações com horizontes visíveis. Acreditando que a referencia à utopia nos afastaria das urgentes mudanças requeridas por um mundo que nos aparece como envelhecido, injusto e violento, Saramago pede que sua geração possa conviver com uma cara menos desumana da sociedade contemporânea. Principalmente para quem provêm de uma geração que chegou à compreensão do mundo na perspectiva da superação do capitalismo e da construção do socialismo, o mundo aparece como muito pior, não apenas dos seus sonhos, mas pior do que já foi, especialmente na segunda metade do século passado. Nesse período se combinavam vários fatores para gerar a impressão que o progresso era um rumo pelo qual transitava o mundo. Avançavam as potências centrais do capitalismo, crescendo simultaneamente as que eram então as três locomotivas da economia mundial - os EUA, a Alemanha e o Japão. Projetava-se um mundo, senão menos desigual, pelo menos com menor quantidade de miséria e abandono.

Expandia-se a economia do então chamado ''campo socialista'', coordenado pela União Soviética. E cresciam vários pólos na periferia do capitalismo, que conseguiam caminhar na direção da industrialização - Brasil, Argentina, México, Coréia do Sul, África do Sul. Na sua combinação, produziam o que Eric Hobsawn chamou de ''era de ouro'' do capitalismo. Transitava-se por um ciclo econômico longo expansivo, o maior da história desse sistema, que iria dos anos 40 aos anos 70, transformando a fisionomia do mundo.

Nos anos 60, tudo parecia possível, quando floresciam as utopias, no bojo de processos revolucionários - como os de Cuba e da Argélia -, resistências heróicas - como a dos vietnamitas contra a ocupação militar dos EUA -, rebeliões - como a de 68 na França, na Alemanha, no Japão, no México, a de 69 na Itália -, com figuras que refletiam esses processos se universalizando - como o Che, Mao-Tse-Tung e Ho-Chi-Minh.

Desde então, quando o capitalismo passou a um ciclo longo recessivo, o desemprego se alastrou até mesmo na Europa ocidental, o campo socialista desapareceu - as utopias parecem em refluxo. Os sonhos socialistas se distanciam no horizonte, enquanto o capitalismo se estende praticamente em todas as zonas do mundo, mercantilizando tudo o que encontra pelo caminho e já não podendo prometer um futuro melhor que o presente para a grande maioria do mundo. A utopia que resta ao capitalismo é a da tecnologia, projetada nas obras de ficção científica - que projeta a tecnologia, sem as relações sociais, precisamente aquelas que impedem sua realização.

Para Eduardo Galeano, a utopia, segue sendo aquele horizonte que se afasta a cada vez que nos aproximamos dele, serve para nos dizer qual a boa direção para caminhar. ''Cada pessoa contêm outras pessoas possíveis e cada mundo contêm seu contramundo. Essa promessa escondida, o mundo que necessitamos, não é menos real que o mundo que conhecemos e padecemos.''

Buscar o impossível, para que o possível possa acontecer. Este, para Galeano, o grande paradoxo da viagem humana no mundo. ''Navega o navegante, mesmo que saiba que nunca tocará as estrelas que o guiam.''