Título: Controle político aumenta poder do tráfico de drogas
Autor: Gustavo de Almeida
Fonte: Jornal do Brasil, 27/03/2005, Rio, p. A18

O tráfico de drogas em escala comercial se instalou no Rio de Janeiro há 23 anos. Os barões colombianos do narcotráfico, especialmente os homens do Cartel de Medelín, chefiados por Pablo Escobar, achavam que o Brasil poderia deixar de ser apenas um corredor de passagem das drogas para os Estados Unidos e a Europa e se transformar num importante mercado consumidor. Tínhamos a característica de ser uma sociedade urbana, concentrada em grandes cidades, com uma classe média importante social e politicamente, com uma vida cosmopolita e um ¿espírito rebelde¿ em sua juventude. Cenário básico para a expansão do tráfico. A primeira interface entre os colombianos e o mercado de drogas no Rio foi montada a partir do crime organizado que atuava no momento, os ¿banqueiros do bicho¿, o povo da loteria animal, até recentemente tratado como ¿bandidos de cunho social¿, tolerados pela Justiça e celebrizado pelas novelas, como em Senhora do Destino, da TV Globo. Neste período, o inimigo público número um atendia pelo nome de Antônio José Nicolau e pela alcunha de Toninho Turco. Todo esse processo é acompanhado por uma violenta guerra pelo poder nas favelas do Rio. A droga tinha que ficar em lugar seguro, a partir do qual fosse possível lançar as teias da distribuição. Um relatório da Polícia Federal, de 1986, afirma que as 31 maiores favelas do Rio recebiam drogas de uma mesma fonte: Toninho Turco, a sombra de Pablo Escobar no Brasil. Esse período da ¿guerra dos morros¿ é o mesmo da afirmação do Comando Vermelho (CV) na liderança do tráfico. Os primeiros ¿chefões¿ da distribuição de drogas nas favelas cariocas acreditavam que era preciso manter um vínculo orgânico com as comunidades pobres, que os protegia com o silêncio e que se beneficiavam com obras sanitárias, escolas e outros movimentos. Bandido pagava remédio e enterro. Bandido interferia em briga doméstica e protegia as meninas da favela. Não havia mais crimes locais. Em troca, silêncio, cumplicidade, mão de obra. Tendo assumido o poder econômico (das drogas) e militar (pela força dos soldados do tráfico), faltava assumir a administração (o poder político).

Nos anos 80 havia duas organizações populares de grande força e influência política, capazes de alterar substancialmente uma eleição para Prefeito, por exemplo. Eram a Famerj (Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio) e a Faferj (Federação das Favelas do Estado do Rio). As duas reuniam muitos milhares de associados. A Famerj chegou a ter um jornal com 150 mil exemplares, do qual fui editor-chefe e fundador, em 1981. A organização elegeu como vice-prefeito do Rio, o presidente da Famerj, Jó Resende, numa chapa com Roberto Saturnino Braga. Os dois sabiam do movimento subterrâneo? Provavelmente, não!

Os órgãos de inteligência da polícia e das Forças Armadas (ainda estávamos na transição da ditadura militar, certo?) registraram que, entre 1982 e 1986, os candidatos indicados pelos traficantes venceram eleições em 35% de todas as entidades populares representativas das favelas e dos bairros pobres do Rio de Janeiro. Por que? Porque um traficante não podia vir a público exigir uma melhoria para o bairro. Ele precisava de uma fachada legal. De forma dissimulada, estes ¿representantes¿ falavam por populações inteiras.

Infelizmente, hoje não há dados confiáveis para aferir a importância desse ¿poder político¿ do crime organizado. Mas, se adotarmos uma lógica cartesiana simples, podemos ter uma idéia do tamanho da encrenca.

*Carlos Amorim, jornalista e escritos, colaborador do Jornal do Brasil, é autor de ¿Comando Vermelho ¿ A história secreta do crime organizado¿ e ¿CV/PCC ¿ A irmandade do crime¿. É professor-convidado da Fundação Getúlio Vargas do Rio e de São Paulo e empresário de cinema e televisão.