Título: Relatório inocenta Annan
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Fonte: Jornal do Brasil, 30/03/2005, Internacional, p. A12

Investigação sobre irregularidade em programa no Iraque diz que filho ''enganou'' secretário-geral

NOVA YORK - O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, foi absolvido ontem das suspeitas de interferir na concessão de contratos para a empresa onde trabalhava seu filho, Kojo Annan. No entanto, o relatório da investigação sobre o ''Programa petróleo por alimentos'' - posto em prática pelas Nações Unidas no Iraque entre 1996 e 2003 - diz que o secretário falhou ao não investigar adequadamente o possível conflito de interesses.

O inquérito comandado por Paul Volcker, ex-presidente do banco central americano, investigou o envolvimento de Annan e de seu filho, ex-funcionário da empresa suíça Cotecna, encarregada de inspecionar as importações de mercadorias no Iraque.

A empresa tinha, no final de 1998, um contrato da ONU que previa o pagamento de US$ 10 milhões anuais para certificar a origem de bens exportados para o Iraque, que faziam parte do programa.

Mas Volcker afirmou que a investigação iniciada pelo secretário-geral foi ''inadequada'' e que o assunto deveria ter sido tratado por uma corregedoria independente da ONU.

O relatório revelou que um assistente de Iqbal Riza, o chefe de gabinete de Annan, rasgou vários documentos em 2004, alguns relativos à investigação do programa ''Petróleo por alimentos''.

Volcker inocentou Kofi Annan:

- Não há evidência de que a seleção da Cotecna em 1998 tenha sido alvo de qualquer influência afirmativa ou imprópria do secretário-geral no processo de licitação e seleção.

Já Kojo Annan, segundo o texto, ''enganou intencionalmente o secretário-geral'' a respeito da sua ligação financeira com a Cotecna. Foi estagiário da empresa entre 1995 e 1998 - saiu, portanto, na época da concessão do contrato. Mas, entre 1999 e fevereiro de 2004, continuou recebendo US$ 2.500 mensais, em troca de não trabalhar para concorrentes da Cotecna na África Ocidental.

Após a divulgação do relatório, Annan afirmou que não pretende renunciar ao cargo.

- Tenho muito trabalho a fazer e seguirei adiante para completá-lo - disse.

Por meio de uma carta, 59 diplomatas dos Estados Unidos pediram ontem ao presidente da comissão de Relações Exteriores do Senado, Richard Lugar, que se oponha à nomeação de John Bolton como embaixador do país na ONU. Bolton é o atual subsecretário de Estado para Controle de Armas e Segurança Internacional.

O documento aponta que o ceticismo de Bolton em relação às contribuições americanas para financiar as missões de paz da ONU e suas iniciativas contrárias ao Tribunal Penal Internacional (TPI) dificultam uma liderança eficaz para os EUA no organismo, sob a sua direção.

O subsecretário vai comparecer dia 7 de abril ante a comissão de Relações Exteriores do Senado americano, que deve confirmar sua nomeação.