Título: ''Eu não sei ser vice''
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 30/03/2005, Brasília, p. D5

Entrevista: José Roberto Arruda

Depois de um bom tempo em silêncio, o deputado José Roberto Arruda (PFL-DF), decidiu falar sobre a sua pretensão política e planos para a capital da República se conseguir chegar ao Palácio do Buriti, nas eleições do próximo ano, em entrevista ao ex-candidato a deputado distrital José Antônio Reguffe, na TV Apoio. Arruda disputa a aprovação da sua candidatura com o presidente do seu partido, senador Paulo Octávio, que também não faz segredos do seu desejo de ocupar a cadeira do governador Joaquim Roriz. Ambos não só estão no páreo pela indicação do PFL, mas também pelo apoio do governador, tido como o mais importante cabo eleitoral e fiel da balança no processo sucessório. Embora Roriz seja do PMDB, os dois pré-candidatos não têm dúvida de que a influência do governador extrapola os limites do seu partido. Arruda avisa que pretende conquistar o respaldo do governador Joaquim Roriz e acha que conseguirá. E pretende que a base política do GDF esteja unida na eleição. Contesta que Paulo Octávio o tenha levado para o PFL ¿ "ao contrário, fui eu quem o levei", diz, afirmando que a filiação do senador ao partido se deu em encontro por ele promovido na casa do presidente do partido, Jorge Bornhausen. E avisa ainda que, em uma eventual composição para a chapa sucessória, não aceitará cargo de vice. "Não tenho condições de deixar de opinar", explica. A seguir os principais trechos da entrevista do deputado José Roberto Arruda:

Candidatura ao GDF

¿Eu quero ser candidato e estou trabalhando para isso. Mas não o farei a qualquer custo. Creio que uma candidatura majoritária deve ser resultado de uma vontade, de um sonho coletivo. Foi na manifestação dessa vontade que cheguei ao Senado e também a Câmara. Depois do episódio de meu afastamento, resolvi começar toda a minha vida política, galgando paulatinamente os degraus da vida pública. Mas sempre com a preocupação de ajudar Brasília. As pesquisas atuais estão mostrando a consolidação do desejo de Brasília. Não é só uma vontade pessoal. Quando há um grupo de comunicação, ou empresarial por trás de uma candidatura, ela pode vir a ser uma manifestação de um desejo pessoal. Mas no meu caso, ela tem a ver com o reconhecimento a minha ligação com a cidade, com meu comprometimento com um modelo de qualidade de vida para o DF e a minha proposta de discutir o futuro¿.

Apoio do governador Roriz

¿Claro que gostaria de ter o apoio do governador. Primeiro porque acredito que ele faz um bom governo. Eu sempre disse que, durante sua primeira administração Roriz tinha feito um ótimo governo. E considerava difícil ele se superar. Mas agora, vendo as obras que ele faz, consolidando a infra-estrutura viária do DF, terminado o Eixo Monumental, levando o metrô até Ceilândia, não tenho dúvidas de que faz um governo melhor ainda. Por isso, seu peso político é muito grande. Mas mais importante ainda é o apoio da população. Em primeiro lugar, estou trabalhando com a minha base política, que me elegeu para deputado e para qual exerço minha função de parlamentar. Isso com todos os meios que possuo. E não são muitos. Eu não tenho emissora de rádio, nem de TV. Mas eu gosto assim. Gosto de trabalhar em contato com as pessoas, na base do gastando a sola de sapato¿.

Candidatura sem apoio de Roriz

¿Costumo lembrar uma frase de Ortega y Gasset, que diz: O homem é ele e suas circunstâncias. Não serei candidato sem o apoio popular. Eu busco apoio do governador e acho que deverei ter. Mas acho mais importante o que ele disse sobre a base toda estar unida. São muitos os bons nomes para o GDF. E se tivermos unidade, não só manteremos um bom governo como ainda poderemos avançar. Reitero que quero ser candidato e estou trabalhando por isso. E acho até que vou ser. Mas sem arrogância. Eu quero se for resultado da vontade coletiva¿.

Sobre Paulo Octávio poder ser governo e empresário

¿Eu estou falando em tese. Aliás sempre digo isso para ele (Paulo Octávio). Vejo dificuldades em atuar nos dois lados do balcão. Ou se é empresário ou se é governador. Como você vai definir uma prioridade de governo que tenha reflexos em sua vida empresarial de uma forma imparcial? Eu não sou, nem nunca fui empresário, então optei pela vida pública. Admito até que alguém possa conciliar isso, mas eu vejo muitas dificuldades. Até do ponto de vista conceitual¿.

Sobre entrevista recente do senador Paulo Octávio, onde ele diz que tinha apoiado o nome de Arruda para o Senado e que foi o protagonista da entrada do deptado no PFL

¿Em primeiro lugar, preciso ter certeza se foi exatamente isso que o senador disse. Se não foi descontextualizado. Isso porque não foi o Paulo Octávio que me levou para o PFL, ao contrário, fui eu quem o levei. Tenho uma boa relação com o senador. E lembro que quando ele ficou sem mandato, eu apoiei sua candidatura a deputado federal. Uma eleição que não foi nada fácil, aliás. Na época em que intercedi para sua entrada no PFL, na casa do senador Jorge Bornhausen, em uma reunião na qual também estava presente o Osório Adriano, fizemos um pacto de que quem estivesse em melhores condições apoiaria o outro ao GDF. Acredito que acordo é para ser cumprido. E no momento, estou em melhores condições. Um outro ponto importante a ser lembrado é que o eleitor deu seu voto para que ele cumprisse seu mandato de senador, que é de oito anos. Quero lembrar que existe uma espécie de maldição sobre quem esquece essa promessa. Em 86, Maurício Correa deixou o Senado para se candidatar e perdeu. Em 94, Valmir Campelo deixou o Senado e perdeu. Em 98, eu perdi. Mas aprendi a lição. A conclusão que eu tiro é que o eleitor quer que o senador cumpra seu mandato. Para o qual foi escolhido. Eu quero o apoio do Paulo Octávio e dos empresários. Eles são importantes. Mas os empresários sabem que não vão mandar em mim¿.

Aprovação de Roriz e mudança no secretariado

¿Os resultados obtidos pelo governador na aprovação popular estão ligados a vários fatores. Em primeiro lugar, a sua capacidade de administrar. Ele reduziu e renegociou a dívida do DF, o que lhe permitiu fazer uma série de investimentos. Em segundo lugar, ele soube definir as prioridades para esses investimentos. Governando de olho no futuro. É claro que um governo pode ter falhas. Não existe um governo perfeito. Senão ele teria 100% de aprovação. Agora, sua pergunta revela uma incongruência. Quando Roriz troca seus secretários, ele está mudando. Ele está tentando acertar. E se mudou é porque quis dizer para a sociedade que quer melhorar essas áreas. Veja a diferença com Lula. Ele prometeu uma reforma e frustrou a sociedade deixando áreas que não vão bem, como a Saúde e a Educação. Nesse sentido, Roriz fez bem mais. Evidentemente, tenho visão critica e sei que pode melhorar. Mas avalio que a escolha dos nomes para a Saúde e de para a Educação sinaliza não só mudanças para essas áreas, com pessoas muito competentes e sérias, como também uma melhora no entendimento político com a base. Já que são nomes que somam mais apoio político¿.

Propostas para os servidores públicos do GDF

¿Temos várias propostas. Em primeiro lugar a criação de uma previdência própria para os servidores do GDF. Criando uma caixa previdenciária que ajude a manter o patamar de remuneração que esses servidores tinham antes de sua aposentadoria. Em segundo lugar, ampliar a criação de planos de careira, como os já feitos para áreas de Educação e Saúde, para outros segmentos dos servidores. Retomar os concursos públicos como forma de evitar as contratações temporárias. Também é uma proposta antiga minha a descentralização dos serviços. Tirar de Brasília vários órgãos estabelecendo-os em Taguatinga, Ceilândia e Samambaia. Fiz uma pesquisa recente que mostra que um grande número de servidores sai de Taguatinga, Ceilândia e Samambaia para atender no Plano Piloto um morador também de Taguatinga, Ceilândia e Samambaia. Essa descentralização significaria mais qualidade de vida para esse servidor. Além de servir para diminuir o tráfego no DF. Acredito que o Plano Piloto deve ser a capital da República. Outra proposta , feita por mim ainda em 98, diz respeito a um plano habitacional voltado para o servidor do GDF¿.

Candidatura a vice-governador

¿Não seria por um motivo simples. Não sei ser vice. Não tenho condições de não opinar, de não interferir em um projeto de governo¿.