Título: Terri morre após 14 dias sem sonda
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Fonte: Jornal do Brasil, 01/04/2005, Internacional, p. A14

Pais são impedidos de passar os últimos minutos de vida com a filha. George e Jeb Bush lamentam a morte

PINELLAS PARK, EUA - A americana Terri Schiavo, centro de uma batalha familiar que virou debate nacional e envolveu até o presidente George Bush, morreu ontem na Flórida, 14 dias depois de ter o tubo que a alimentava removido por ordem judicial. A mulher, que tinha 41 anos, estava há 15 em estado vegetativo persistente.

- Terri Schiavo faleceu agora há pouco - informou o monge Paul O'Donnell, líder espiritual dos pais da paciente, Bob e Mary Schindler.

Ela morreu apenas poucas horas depois de a Suprema Corte de Justiça rejeitar uma vez mais um pedido feito pela família para que revisse o caso e determinasse a reinserção da sonda. Terri estava em estado vegetativo desde que sofreu uma parada cardíaca que impediu a oxigenação do cérebro.

O marido e guardião legal de Terri, Michael Schiavo, estava a seu lado quando ela morreu, pouco depois das 9h. Minutos antes, ele e os sogros, que há sete anos disputavam o caso na Justiça, tiveram um novo desentendimento.

Segundo o advogado de Michael, George Felos, os Schindler ficaram ao lado da mulher entre 7h e 8h45, quando um funcionário do hospital avisou Michael, que aguardava fora do quarto, que ela estava prestes a morrer. O marido foi vê-la, mas, de acordo com Felos, os médicos pediram que os demais saíssem da habitação para que pudessem fazer uma avaliação do estado de saúde de Terri. Neste momento, houve discussão e o irmão da paciente, Bobby Schindler, se negou a sair. Michael então pediu que ele fosse retirado pela polícia.

- Ele achou que não era conveniente que ela passasse seus últimos minutos em um ambiente assim. Ela deveria morrer em paz - disse Felos, acrescentando que os Schindler sempre puderam visitá-la. - Esta morte não foi pelos irmãos, não foi pelo marido, não foi pelos pais. Foi por Terri.

- A crueldade desumana continuou até o último momento - atacou Frank Pavone, padre católico estava no hospital com a família. - Esta não foi só uma morte, com toda a tristeza que isso implica. Foi assassinato.

O advogado de Michael contou ainda que pouco depois da morte de Terri, cerca de 40 funcionários do hospital, entre médicos e enfermeiros, se reuniram ao redor do corpo e deram as mãos.

- Foi um momento de muita emoção. Alguns cuidavam dela há cinco anos - disse.

Do lado de fora do hospital, um pequeno grupo de manifestantes em vigília chorou, rezou e entoou cânticos quando recebeu a notícia da morte. Durante a batalha judicial, os Schindler receberam o apoio de ativistas religiosos conservadores, de pessoas empenhadas na luta contra o aborto, das que defendem os incapacitados e pela maioria dos políticos republicanos. O Congresso e o presidente chegaram a intervir, criando uma lei em caráter de urgência, na qual se transferia o caso para jurisdição federal, depois das sucessivas derrotas nas cortes estaduais.

Na Casa Branca, Bush expressou suas condolências:

- Encorajo todos aqueles que respeitam Terri Schiavo a continuar a trabalhar para construir uma cultura de vida, onde todos os americanos são bem-vindos, valorizados e protegidos, especialmente aqueles que vivem da compaixão dos outros - disse. - Na essência da civilização o forte tem o dever de proteger o fraco.

O governador da Flórida e irmão do presidente, Jeb Bush, que interveio no caso em 2003, ordenando que o tubo de alimentação fosse reconectado, também lamentou a morte:

- Muitos em nosso estado e ao redor do mundo estão profundamente pesarosos pela maneira como Terri morreu. Também sinto este pesar muito fortemente.

No Vaticano, o porta-voz Joaquin Navarro-Valls declarou que a morte foi causada por uma inaceitável ''violação da natureza sagrada da vida''.

Randall Terry, fundador da Coalizão de Defesa Cristã, tinha previsto dirigir o funeral na noite de ontem, na Flórida.

Policiais escoltaram o carro que levou o corpo ao Centro de Exames do Condado de Pinellas, onde será realizada a autópsia. O resultado deve demorar semanas para ser divulgado.

Como aprovado por um juiz este mês, o corpo da mulher será cremado e as cinzas enterradas em um terreno da família Schiavo na Pensilvânia, onde o casal se conheceu e se casou.