Título: Tremor: mortos sobem para 518
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Fonte: Jornal do Brasil, 31/03/2005, Internacional, p. A10

Chuvas torrenciais dificultam operações de resgate e ilhéus já reclamam de fome. Duzentos mil precisarão de suprimentos

BANDA ACEH - Pelo menos 518 corpos foram encontrados após o violento terremoto que atingiu a Indonésia, na segunda-feira. No entanto, o governo de Jacarta e a Cruz Vermelha continuam prevendo que o balanço total poderá chegar a 2 mil mortos quando a situação nas ilhas menores for avaliada.

A maioria das vítimas estava na ilha de Nias, onde 500 corpos foram retirados de escombros, segundo a ONU. Nove pessoas foram encontradas mortas na ilha de Simeulue - número muito inferior que o esperado - e outras nove em Sumatra e no arquipélago de Banyak, onde o governo acredita que 300 pessoas tenham morrido. Entretanto, a ONU sobrevoou ontem o local e disse que há poucos sinais de destruição.

Além disso, dois turistas franceses, dois suecos e nove australianos ainda não fizeram contato com parentes. Todos estavam em Nias, considerada um paraíso para os surfistas.

As chuvas torrenciais que ontem castigaram a ilha estão prejudicando as operações. Um helicóptero da ONU ficou retido em solo por vários horas. Com estradas e pontes destruídas, material sanitário, água e comida não chegam com rapidez. Outro problema é que a única pista de vôo de Nias está danificada.

Além da pouca ajuda médica, os moradores também reclamam de fome. O Programa Mundial de Alimentos (PMA), da ONU, calcula que cerca de 200 mil ilhéus, - 66% da população - vão precisar de suprimentos de comida nos próximos dois meses. O PMA instalou uma base aérea em Sibolga, a cidade em Sumatra que fica mais próxima de Nias, para jogar de avião a ajuda humanitária enviada por Cingapura e pela Austrália. De ferryboat, a viagem levaria até 12 horas.

A organização Oxfam estima que pelo menos 20 mil tenham sido afetadas diretamente pelo abalo, entre feridos e desabrigados. Ainda assim, muitos moradores encontram forças para participar das buscas por parentes desaparecidos.

- À noite, ouvi barulhos vindos da terra - contou Henky Tjoa, comerciante que desconhece o destino dos filhos.

Os corpos achados em Gunung Sitoli, a cidade mais arrasada, estão sendo levados para estádios de futebol, catedrais, templos budistas e mesquitas. Cerca de 90% dos habitantes de Nias são cristãos, mas todos os templos recebem os mortos.

- Somos seres humanos, antes de qualquer religião - resumiu o islâmico Farid Mushaf, que ajudou a resgatar dos escombros vizinhos cristãos.

Em Simeulue, o principal obstáculo são os incêndios, que destruíram várias casas já danificadas pelo tremor de 8,7 graus na escala Richter. Dois caminhões do Corpo de Bombeiros estão fora de serviço porque ficaram soterrados no quartel. Houve relatos de pânico.

Desde segunda-feira, 40 abalos secundários foram registrados no fundo do Oceano Índico.