O Estado de São Paulo, n. 46547, 27/03/2021. Política. p.A8

Em 1 ano de pandemia, multidões no Planalto

 

 

André Shalders / BRASÍLIA

O boicote do presidente Jair Bolsonaro a medidas de combate ao coronavírus não se resume ao discurso. Levantamento do Estadão mostra que, desde o início da pandemia, o presidente promoveu pelo menos 41 cerimônias com aglomeração no Palácio do Planalto. De posse de ministros até o lançamento de um selo em homenagem aos 54 anos da Embratur, as solenidades reuniram centenas de convidados, contrariando o isolamento, uma das ações mais eficazes para conter a propagação do vírus, segundo organismos de saúde.

Nos eventos, Bolsonaro apareceu sem máscara, item indispensável para evitar a contaminação, e nos discursos, ao tratar de covid-19, defendeu o tratamento precoce com medicamentos sem eficácia comprovada.

Enquanto o presidente provocava aglomerações, o número de mortes pela doença aumentava no País, chegando aos mais de 300 mil nesta semana. A doença também chegou ao Planalto. Até fevereiro, além do próprio presidente e ministros, 454 funcionários da Presidência contraíram a covid-19, segundo a Secretariageral. Ao menos um morreu, o segundo-sargento do Exército Silvio Kammers, que atuava no gabinete de Bolsonaro.

Um desses eventos ocorreu no dia 23 de fevereiro. Na ocasião, Bolsonaro falou para uma plateia de cerca de 300 prefeitos, vereadores e assessores em um dos salões do segundo andar da sede do Executivo. No mesmo dia, o País registrou 1.370 óbitos e o saldo de mortes totalizava 248.646, segundo o consórcio de veículos de imprensa. Bolsonaro também contrariou regras de distanciamento social ao promover programas de governo, como o “Casa Verde e Amarela” (de habitação); o “Adote 1 Parque” (parques nacionais) e o “Norte Conectado” (inclusão digital na Amazônia).

Além disso, Bolsonaro realizou reuniões políticas que não são descritas como “eventos” na agenda oficial. No dia 3 de março, por exemplo, almoçou com parte da bancada de Minas Gerais no Congresso e o governador do Estado, Romeu Zema (Novo). No cardápio, um leitão à pururuca oferecido pelo deputado Fábio Ramalho (MDBMG). Uma foto postada pelo deputado – tirada num momento em que não estavam comendo – mostra nove dos presentes. Sete estavam sem máscara.

Parte das cerimônias de Bolsonaro no Planalto foi realizada em momentos nos quais o governo do Distrito Federal havia imposto medidas de isolamento para tentar conter a propagação do vírus, como o fechamento do comércio e escolas. Foram dois momentos: entre março e maio do ano passado, e a partir do fim de fevereiro deste ano. As restrições, no entanto, não se aplicam a eventos como os realizados pela Presidência.

Nas duas ocasiões, o Planalto promoveu festividades. Eventos para comemorar a sanção de projetos de lei sobre vacinas; para celebrar a assinatura de decreto do novo Fundeb e para lançar uma campanha de enfrentamento à violência doméstica.

Contramão. Os eventos no Planalto contrariaram orientações do próprio Ministério da Saúde. Em março do ano passado, ainda no começo da pandemia, a pasta divulgou recomendação para que fossem cancelados ou adiados eventos em locais fechados com mais de cem pessoas. A partir de abril de 2020, passou a defender o uso de máscaras. No fim de fevereiro, porém, Bolsonaro disse que a máscara pode causar “dor de cabeça, desânimo e fadiga” em crianças. Como base, citou um estudo alemão sem base científica.

Uma das maiores aglomerações foi registrada no dia 24 de fevereiro deste ano, com cerca de 400 pessoas, segundo a equipe de segurança da Presidência. Na ocasião, Bolsonaro deu posse a João Roma como ministro da Cidadania e a Onyx Lorenzoni como titular da Secretariageral. Também sancionou a lei que deu autonomia ao Banco Central. Bolsonaro estava sem máscara. Naquele dia foram mais 1.433 mortes.

Nem auxiliares do presidente que tiveram diagnóstico confirmado da doença evitaram participar de aglomerações. Em fevereiro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, participou de eventos presenciais oito dias após receber o resultado positivo – o mínimo recomendado é de 14 dias. Na ocasião, afirmou que teve aval de médicos para deixar o isolamento.

Espalhamento. Segundo epidemiologistas, reuniões em ambientes fechados – como o Salão Nobre, onde é realizada a maioria das cerimônias no Planalto – são a principal forma de espalhamento do vírus. Dependendo das condições do local, uma pessoa infectada pode contaminar entre 20 e 30 indivíduos, disse o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da USP.

“Quando as pessoas falam em voz alta, elas fazem uma aspersão muito grande desse material (esporos do vírus). Se você está em um local sem ventilação, é muito complicado”, afirmou Lotufo. Segundo ele, a forma como o vírus se espalha torna “totalmente desaconselháveis” reuniões em ambientes fechados.

Procurada, a Presidência da República não se manifestou.