Título: A beleza da inocência
Autor: Alfredo Ruy Barbosa
Fonte: Jornal do Brasil, 07/04/2005, Outras opiniões, p. A11

No mundo atual e neste país cansado de tanta violência, corrupção e impunidade, nada é mais confortante do que poder observar o rostinho de uma criança, com aquele brilho puro dos seus olhinhos inquietos. Fico ainda mais feliz quando tenho o privilégio de presenciar algumas das surpreendentes reações dessas adoráveis criaturas.

Quando estou em algum lugar público e vejo passar por mim os pais ou a mãe de uma criança, segurando a sua mãozinha rebelde, dou sempre um sorriso e faço um leve aceno para ela. Muitas vezes, recebo um sorriso angelical como resposta. São seres realmente divinos, ainda não contaminados pelos vícios da vida adulta.

Há poucos dias, estava sentado na sala de embarque no Aeroporto do Galeão, quando um casal, acompanhado por um amigo, sentou-se próximo a mim com o seu filho, que deveria ter uns 5 ou 6 anos idade. O menino era uma graça: alegre, bem educado e, como toda criança, bastante curioso. Andava ligeiro para todos os lados, encantado com aquele amplo ambiente, e voltava para a companhia dos seus pais. Estava, no entanto, um pouco ansioso porque não conseguia ver o avião no qual iríamos todos embarcar.

- Pai, cadê o avião? Ele ainda não chegou!

- Calma, filho! - respondeu o pai. - Daqui a pouco ele está aí.

Eu estava sentado junto à imensa janela da sala de embarque, mas o casal acomodara-se no lado oposto da fileira de assentos, de onde não podiam ver o mesmo que eu via: o avião já estava no finger, sendo preparado para o nosso vôo. Sabendo que ele não correria qualquer risco, chamei, então, o menino e disse a ele:

- Vai ali até a janela que você vai ver o nosso avião.

O garoto correu até lá e voltou exultante para falar comigo.

- O avião chegou, mas não apitou!

Dei uma gostosa risada e contei para os pais do menino o que ele acabara de me dizer. Surpresos e felizes, os pais e seu amigo deram, também, uma sonora gargalhada. Graças a esse anjinho inocente, embarquei alegre e relaxado.

Outro episódio do gênero aconteceu com o meu neto Vitor quando ele tinha quatro anos de idade (permita-me essa ''corujice'' de avô, caro leitor!). Perdera, de repente, o seu carrinho predileto e já o havia procurado em todo o apartamento. Estava bastante aflito. Tentando tranqüilizá-lo, meu filho disse a ele:

- Não se preocupe! O carrinho tem de estar aqui em algum lugar; afinal, ninguém saiu de casa! Basta você lembrar onde andou brincando com ele. Vou lhe dar uma ''dica'', que vai lhe ajudar a achá-lo: faça um ''filminho'' na sua cabeça, tentando ver todas as ''cenas'' onde você esteve com o carrinho.

Meu neto saiu em disparada e percorreu novamente todo o apartamento. Minutos depois, voltou desolado.

- Não achei nada, papai!

Meu filho, então, indagou:

- Você fez aquele ''filminho'' na sua cabeça que eu lhe ensinei?

- Eu tentei, pai, mas só passou o ''trailer''!

Nada se compara à inocência e à pureza das crianças, que tornam a nossa vida mais amena e feliz. Delas é, realmente, o reino dos céus!

Peço a Deus que preserve, de alguma forma, nas almas dos jovens - futuros adultos das novas gerações - essas qualidades divinas e maravilhosas das crianças que encantam e iluminam os nossos dias. Se Ele nos conceder essa graça é possível que tenhamos, algum dia, um país melhor e mais justo, onde prevaleçam a igualdade, a ética e a verdadeira justiça.