Título: EUA perdem rastro de US$ 9 bilhões
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 02/02/2005, Internacional, p. A10

Auditoria oficial constata que dinheiro que deveria ter sido distribuído para ministérios em Bagdá não foi localizado

WASHINGTON - Autoridades das forças de ocupação americana - que governaram o Iraque até meados de 2004 - falharam em monitorar o uso de uma verba de quase US$ 9 bilhões, que foi transferida aos ministérios de Bagdá. A informação consta de um relatório oficial do governo dos EUA, divulgado ontem em Washington.

- O controle inadequado dos fundos pode ter aberto caminho para fraudes e corrupção - afirmou o general Stuart Bowen em depoimento ao Congresso. O militar, indicado pelo governo americano para realizar uma auditoria sobre os gastos no Iraque no pós-guerra, atuava como inspetor especial da reconstrução do país.

O dinheiro desaparecido, no entanto, não é americano. Pelo contrário. O montante, que integrava o Fundo de Desenvolvimento para o Iraque, provinha de exportações de óleo do país árabe, resquícios do programa Petróleo por Alimentos, das Nações Unidas, e de bens confiscados do regime de Saddam Hussein. Ou seja, a verba pertencia ao próprio governo do Iraque.

O documento dá uma pista para o que pode ter acontecido. O estudo realça as difíceis condições de administração que as forças de ocupação encontraram. Para saber o volume exato dos depósitos, tinham de contar com auditorias iraquianas que, praticamente não funcionaram entre outubro de 2003 e 28 de junho de 2004, período de transferência para o governo interino.

Apesar de o relatório não afirmar que houve corrupção, revela que ''não há nenhuma garantia de que os fundos foram usados para os propósitos designados''- que seriam a reconstrução da economia e da infra-estrutura do país e ajuda humanitária. A questão é a forma dessa utilização.

Em fevereiro de 2004, por exemplo, de acordo com a auditoria, US$ 17 milhões foram pagos em salários para funcionários de empresas de segurança. Mas a autoridade de ocupação não possuía nenhum documento detalhando os pagamentos. Um ministério iraquiano também teria recebido dinheiro para pagar 8.206 guardas de segurança, apesar de só ser confirmada a existência de 602 contratados. Em outro ministério 1.417 agentes teriam sido pagos, sendo que só foram identificados efetivamente cerca de 642.

As investigações atacam o programa Petróleo por Alimentos, que está sendo investigado pelas Nações Unidas e por diversos comitês do Congresso americano. As denúncias indicam que bilhões de dólares foram desviados por Saddam Hussein.

O procônsul americano Paul Bremer, em tese o responsável pela distribuição do dinheiro, discordou do relatório e disse que seria injusto esperar uma administração adequada dos gastos num período de intranqüilidade. E afirmou que, por questões de segurança, não seria prudente mudar o número de guardas na folha.