Correio Braziliense, n. 20660, 16/12/2019. Política, p. 2

Prova de fogo para a articulação
Rodolfo Costa


O cumprimento da promessa eleitoral de “mais Brasil, menos Brasília” vai impor desafios à articulação política do governo em 2020. A descentralização de recursos geridos pela União para os estados e municípios pode enfraquecer a tinta das canetas no Palácio do Planalto e requerer novas estratégias para a barganha com deputados e senadores. No próximo ano, as emendas parlamentares individuais serão transferidas diretamente para as prefeituras das respectivas bases dos congressistas, sem a vinculação com programas do governo. As emendas de bancada, que, até então, eram negociadas pelo Executivo, passarão a ser impositivas, ou seja, de execução obrigatória. Ciente das dificuldades, a aposta do Planalto é trabalhar o mérito das propostas e, quando necessário, negociar a liberação de emendas extras em patamares entre R$ 2 milhões e, no máximo, R$ 10 milhões por legislador.

A articulação política tem noção dos desafios que enfrentará, sobretudo de ordem fiscal, e vai evitar propor acordos impagáveis. A aprovação da reforma da Previdência veio ao custo de uma promessa feita pelo ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni — até então o articulador — de R$ 20 milhões em emendas extras para cada deputado disposto a votar pela matéria, fora combinados feitos com líderes partidários e senadores, que chegaram a R$ 35 milhões. A fatura caiu justamente para o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos — o atual articulador —, que, a pessoas próximas, garante que, em 2020, será diferente.

Os mais próximos a Lorenzoni argumentam que os acordos feitos por ele foram necessários para viabilizar a aprovação de uma matéria impopular, como a Previdência, mas a conta disso se tornou quase impagável para Ramos, que, junto de sua equipe, se esforça para honrar todos os compromissos até o fim de ano. A meta para 2020, contudo, é adotar um modelo mais próximo do usado pelo então presidente Michel Temer, de oferecer a liberação de R$ 5 milhões — chegando ao máximo de R$ 10 milhões para os mais fiéis — em emendas extras e cargos para deputados e senadores que mostrarem lealdade em votações de propostas sensíveis, como a polêmica reforma administrativa, que sofrerá a resistência de corporações do funcionalismo.

Quando o presidente Jair Bolsonaro anunciou a mudança na articulação política, disse que a ideia era “retornar ao que era feito em governos anteriores”. É o que Ramos pretende adotar. Um ex-interlocutor do governo Temer afirma que, raramente, eram liberados mais de R$ 5 milhões em emendas para um único parlamentar. A diferença, adverte, é que os acordos eram executados. “Agora, tanto as emendas quanto os cargos não são. São promessas que estão ficando no papel. Os ministros não nomeiam os indicados e não executam as verbas”, ressalta.

Ganância

Outro desafio da articulação para 2020 será conter a ganância dos políticos. Uma liderança no Congresso avalia que parlamentares acostumados com R$ 20 milhões em emendas extras vão pressionar por barganhas em volume semelhante. “Os dois lados vão querer sempre mais. Um vai querer pagar o mínimo possível e o outro vai desejar receber mais. O Ramos está fazendo um bom trabalho, sendo bem honesto. Chama o pessoal, conversa, e não faz o ‘toma lá da cá’ que começaram a querer fazer na Previdência”, analisa um deputado. “A narrativa é de ‘quem estiver com a gente vai ter cargo, verba extra etc. Quem não estiver, sinto muito’.”

O líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), reconhece os desafios, ao ressaltar que o Orçamento será muito mais impositivo. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) para 2020 prevê R$ 16,2 bilhões em emendas impositivas, dos quais R$ 9,5 bilhões são individuais e R$ 6,7 bilhões, de bancada. Com a provável aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 188/2019 para o próximo ano, que propõe o Pacto Federativo por meio da descentralização de até R$ 400 bilhões em 15 anos a estados e municípios, a tendência também será de menos disposição de recursos para remanejamentos das verbas extras dentro do Orçamento.

Apesar das dificuldades, Vitor Hugo garante que o governo está preparado. “Estamos muito preocupados em focar no mérito das propostas, conversando com relatores, trazendo técnicos da Esplanada para dentro da liderança, a fim de poder apresentar argumentos para os relatores incorporarem nossos pedidos”, frisa. “E vamos focar mais nisso, de influenciar o mérito, e a Secretaria de Governo vai fazer o papel dela de construir apoio para as votações.” Contudo, ele admite que essa é uma estratégia voltada mais para a agenda econômica. “A pauta voltada para o lado econômico flui de maneira natural. O maior desafio para a gente vai ser quando a pauta começar a ser de costumes, e também a questão das armas.”

Os cargos e as emendas são importantes instrumentos da articulação política, mas o cientista político Enrico Ribeiro, coordenador legislativo da Queiroz Assessoria em Relações Institucionais e Governamentais, destaca que não são os únicos. Com menos recursos, o governo precisará apostar no poder de argumentação, de visibilidade e de agenda de Bolsonaro, avalia o especialista. “Ele não ganhou nenhum assunto que pautou. Mesmo a Previdência e o pacote anticrime não foram pautas de iniciativa do Executivo”, lembra. “Será preciso uma comunicação mais engajada e utilizar o capital político do presidente para levantar, sem polêmicas e crises, os aliados em suas bases, como em lançamentos de políticas públicas governistas.”

Votação

O Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) de 2020, que traz a previsão de gastos e receitas do governo no próximo ano, ainda não foi votado pelo Congresso. O Presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), disse que vai pautar a matéria em sessão conjunta do Congresso, amanhã. Deputados e senadores têm até 22 de dezembro para aprovar o Orçamento, porque o recesso parlamentar começa, oficialmente, no dia seguinte.

Fase de adaptação

Os desafios para a articulação política em 2020 são relevantes, mas parlamentares governistas, de centro e até de partidos da oposição, acreditam que é possível superá-los com bom diálogo. Líder do Unidos pelo Brasil, maior bloco parlamentar do Senado, Esperidião Amin (PP-SC) não considera que a descentralização de recursos e as estratégias adotadas pela articulação política possam deixar o governo refém do parlamento.

Para o senador, as medidas escolhidas comprovam a incorporação de uma política nova pela qual o presidente foi respaldado pelas urnas. “Ele (Bolsonaro) contraria os que querem nomear um ‘ministrozinho’. O ministro é dele, e ele está tendo a coragem de fazer (diferente), mas está certo ou está errado para o povo? Qual é o compromisso que um ministro de partido tem em relação à sociedade? Nenhum. Ele tem compromisso com o seu partido, e o presidente tem compromisso com a sociedade”, sustenta.

O não loteamento de cargos no governo, especialmente no primeiro escalão, é uma política com a qual os parlamentares ainda estão aprendendo a lidar, avalia Amin. “Contrariar esses interesses pode gerar ruído, mas merece aplausos”, destaca. A análise não é diferente em relação às emendas. O senador recorda que, como deputado federal, Bolsonaro conviveu com governos “trancando” a liberação de recursos, por incompetências de alguns ministérios ou de dificuldades estruturais. “Então, ele está sendo coerente também nisso (descentralização)”, pondera. No Senado, Amin foi relator da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 34/2019, que tornou impositivas as emendas de bancada.

Já o deputado federal Eduardo Bismarck (PDT-CE), que presidiu a comissão especial para discutir a PEC 48/2019 — texto que tornou possível a transferência direta de emendas parlamentares individuais para os municípios —, considera que a relação entre Executivo e Legislativo é sempre desafiadora, mas frisa que não será apenas o governo a ter de fazer sua parte.

Para o pedetista, contudo, ambas as PECs representam avanços significativos para o Pacto Federativo. “Haverá desafios a serem superados por ambas as partes em uma relação que tem de ser construída todo dia. Tem dia que está mais desgastada e tem dia que não está. Mas a grande vantagem é que o Congresso está votando a pauta que acredita ser melhor para o Brasil”, ressalta. O senador Izalci Lucas (PSDB-DF), vice-líder do governo na Casa, diz que a articulação política vai focar no convencimento. “Os parlamentares não votam mais só porque alguém mandou”, comenta.

Embora reconheça que o governo ainda precisará lidar com “uns ou outros” que tentarão barganhar cargos e emendas em troca de votos, Izalci acredita que a maioria do Congresso adquiriu maturidade política. “A maioria, hoje, tem a noção da importância de fazer o que é certo. A população acompanha muito nas redes sociais, mudou um pouco isso”, enfatiza. “O próprio PSDB não é governo, mas teve papel fundamental nas reformas. Por quê? Porque está no DNA do partido e no programa do partido ser favorável às reformas. Então, vai votar independentemente de ter emenda e não ter emenda, de ter cargo e não ter cargo.” (RC)