Título: Calheiros, um artista político
Autor: Daniel Pereira
Fonte: Jornal do Brasil, 06/02/2005, País, p. A4

No próximo dia 14, Renan Calheiros (PMDB-AL) será eleito presidente do Senado e líder máximo do Congresso. Chegará ao topo do Legislativo, segundo colegas e especialistas, graças à extrema habilidade na arte da negociação política, qualidade cada vez mais cara ao Planalto diante dos contratempos provocados no Parlamento pelas próprias lideranças governistas.

Líder do PMDB, Calheiros tem sido peça-chave, por exemplo, nas discussões sobre a reforma ministerial, auxiliando o presidente Lula a traçar mudanças na Esplanada e na direção de estatais que ampliem a base de apoio ao governo nas duas Casas do Congresso.

- Ele é um bom soldado do PMDB, está nas trincheiras há muito tempo e tem carregado muito piano - avalia o cientista político David Flescher.

Compartilha da opinião o senador Ney Suassuna (PB), apontado como favorito para suceder Calheiros na liderança do PMDB no Senado.

- Ele é um de nós, é um soldado. É diferente do José Sarney, que é ex-presidente da República e imortal (da Academia Brasileira de Letras). Um tratamos por senhor, o outro pelo nome - declarou, ressaltando que Calheiros, ao compor a fileira dos comuns, manterá o suposto clima de harmonia do Senado.

Segundo Suassuna, a gestão de Calheiros será de pequenos aperfeiçoamentos em relação à de Sarney. Não haveria uma ruptura traumática na condução da Casa porque o processo de sucessão teria sido pautado em um acordo, evitando o desfecho clássico que opõe vencedores e derrotados. O acordo é recente e inclui a indicação da senadora Roseana Sarney (PFL-MA) no rol de ministeriáveis.

Ano passado, Calheiros teve de enfrentar José Sarney e João Paulo Cunha (PT-SP) para derrubar a emenda constitucional que garantiria aos dois o direito de concorrer à reeleição para as presidências do Senado e da Câmara. Apesar do empenho do ministro José Dirceu (Casa Civil) em garantir a aprovação do projeto, Calheiros venceu a disputa por menos de 10 votos.

Segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, Calheiros apareceu em sétimo lugar na lista dos parlamentares mais influentes do Congresso em 2004 por, entre outros motivos, ter decretado a morte das pretensões de Sarney e João Paulo. Em 2003, o senador não ficou entre os 10 mais votados.

Outra característica de Calheiros é a capacidade de se reerguer politicamente. Em 1990, era líder do governo de Fernando Collor de Mello na Câmara. Abandonou o barco antes do impeachment do ex-presidente, quando foi preterido na escolha do candidato do Planalto (Geraldo Bulhões) ao governo de Alagoas. Em 1994, foi eleito pela primeira vez ao Senado e, desde então, voltou à base de apoio ao governo. Tanto no de de Fernando Henrique - quando ocupou o cargo de ministro da Justiça - quanto no de Lula. Líder do PMDB, ajudou o Planalto a aprovar vários projetos considerados prioritários. Como lembram os parlamentares, a título de elogio e crítica, Calheiros está mais do que calejado com os meandros do poder.