Título: Velhos conhecidos agora vendem novos produtos
Autor: Bruno Rosa
Fonte: Jornal do Brasil, 06/03/2005, Economia & Negócios, p. A23
Garotos-propaganda dispensados por antigos clientes emprestam credibilidade a outras agências e voltam à telinha
Está aberta a temporada de caça aos clássicos da publicidade brasileira. O ex-garoto-propaganda da Bombril, o ator Carlos Moreno, passou a vender dinheiro da Fininvest para aposentados. José Valien Royo, o ex-Baixinho da Kaiser, agora bebe cerveja Colônia, popular no Sul do país. Até o famoso Casal Unibanco, protagonizado pelos atores Miguel Falabella e Débora Bloch, está sendo sondado por uma grande rede de supermercados do país.
A estratégia pode parecer estranha, mas muitas empresas não pensam duas vezes em reaproveitar fórmulas bem-sucedidas e imortalizadas pela propaganda para impulsionar as vendas e cativar o público. A lista não pára por aí. O ator Fabiano Augusto, garoto-propaganda das Casas Bahia, analisa seu futuro diante do fim de seu régio contrato, no mês que vem.
Outros personagens como o Tio Sukita, o Batata das Sendas e Sebastian, da C&A, também são assediados, e muito, pelos concorrentes. Depois de 26 anos emprestando sua imagem à Bombril em 336 comerciais, o ator Carlos Moreno foi dispensado. Mas de imediato a principal concorrente no mercado de lã de aço, Assolan, tentou fisgá-lo. O projeto não foi adiante e ele fechou com a Fininvest, financeira do Unibanco. O contrato, de dois anos, firmado em janeiro, ainda tem prioridade de renovação.
- Quando Carlos Moreno saiu da Bombril todo o mercado publicitário tentou contratá-lo porque ele passa muita credibilidade ao público. Ele fechou conosco porque era um projeto de longo prazo. Acho que o público não irá se confundir porque ele já se despediu da antiga empresa - explica Sérgio Lopes, vice-presidente da agência de publicidade responsável pela Fininvest, a QG.
A estratégia da financeira, de acordo com publicitários ouvidos pelo JB, é a transferência de valores construídos na Bombril.
- Em duas décadas, ele ganhou muita simpatia e, hoje, como já está idoso, vende dinheiro para aposentados. Foi uma jogada genial, já que os idosos o acompanham há 20 anos e ele conquistou esse público, pois, quando começou na Bombril ele era o genro tímido e ideal. Agora, uma outra cervejaria também aposta no Baixinho da Kaiser com o mesmo objetivo - afirma o publicitário Lula Vieira, presidente da agência V&S.
Em 1986, quando um ator faltou no dia da gravação de um comercial para a apresentação de uma nova estratégia publicitária para as cervejarias Kaiser, o motorista da produtora de comercial da DPZ, José Valien Royo, foi acionado. O personagem foi tão bem aceito pelos diretores da cervejaria que durou 16 anos.
- Eles me pediram para fazer uma figuração. Mas eu não sabia fazer nada do que eles me pediam e sempre errava tudo. E acho que foi disso que eles gostaram. A minha vida mudou completamente naquele dia. Acho que o Baixinho da Kaiser marcou bastante porque era diferente de tudo, quer dizer, das mulheres e dos atores, que não davam muito certo. Muitas pessoas me dizem que a Kaiser tinha que me imortalizar mas eles não fizeram isso. Uma pena - contou, em tom nostálgico, Valien.
Abandonado em 2002, quando a canadense Molson comprou a Kaiser, ele é hoje a peça-chave para o crescimento da cerveja Colônia, da Indústria Nacional de Bebidas. Presente no Sul, a empresa empregará o ator, interpretando um novo personagem, para chegar aos pontos-de-venda das regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste.
- É mais fácil uma pessoa conhecida agregar valor a uma marca em todo o país. Vamos investir em publicidade 4% do nosso faturamento este ano. Vamos criar um novo nome e visual para ele. Com ele, esperamos aumentar em 40% a cobertura de nossos pontos-de-vendas no país, que, hoje, é de 300 mil bares e lojas - antecipa Luiz Claúdio dos Santos, diretor de marketing nacional da Colônia, cujo dono é o apresentador de TV Ratinho.
Mas o que estes dois personagens têm em comum? Bom, saíram da mesma agência de publicidade, a DPZ. Além disso, os dois eram uma ''solução de projeto temporário''.
- Eles eram uma estratégia de campanha temporária mas como foram sucesso desde sua primeira aparição ficaram. Fazíamos muitas pesquisas e, a cada resultado, a receptividade dos consumidores aumentava - afirmou Roberto Dualibi, da DPZ.