Correio Braziliense, n.20620, 06/09/2019. Política. p.3
Especialistas veem ousadia do governo
A dívida pública brasileira alcançou, em setembro, R$ 5,6 trilhões, equivalente a 79,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Assim, 2019 será o sexto em que o Brasil gasta mais do que arrecada e, consequentemente, começa o ano seguinte no vermelho. As principais despesas que prendem os recursos da União são, pela ordem, a Previdência Social, os juros da dívida pública e o gasto com pessoal. Para isso, o governo federal tem apostado em uma agenda de reformas estruturais. Depois da nova Previdência, as propostas apresentadas ontem para buscar o reequilíbrio fiscal do país.
Na avaliação de Cláudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais da FGV/Ibre, as medidas encaminham o país para um Estado mais modernizado. “Essa ousadia já aconteceu no passado, na ditadura ou no Plano Real, por exemplo, com outros ministros da Fazenda que fizeram reformas institucionais fundamentais para o país voltar a crescer”, lembrou.
Para ele, as propostas do ministro da Economia, Paulo Guedes, são amplas e ambiciosas. “É muita coragem da equipe econômica mirar na redução do Estado brasileiro na economia, dando espaço para o mercado privado entrar. A questão da incorporação de municípios que não têm recursos para pagar o próprio gasto: é um absurdo cidades assim terem sido criadas, para começar. Está indo no caminho certo.”
Considera destacou que “nunca haverá o melhor momento” para emplacar reformas em um país. “Sempre terá interesses de categorias contra. A questão é lidar com a democracia mostrando que as medidas são essenciais para o crescimento: tem de jogar o jogo democrático mostrando serviço”, frisou.
Para o professor licenciado de economia da Universidade de Brasília (UnB) Newton Marques, o momento é oportuno. Ele disse que a apresentação das PECs poderia ser sido feita até anteriormente, mas acredita que por causa da reforma da Previdência o pacote foi postergado. De acordo com o economista, a próxima projeção do PIB para 2020 já deve apresentar uma elevação.
Na visão de Considera, o país não voltará a crescer 7% ou 8%. No entanto, com os procedimentos corretos, poderá ter expansão econômica de até 4% em um futuro próximo. “Mas acredito que o Brasil ainda vai amargar um baixo crescimento por uns dois anos. Depois disso, poderemos ter avanço de 2% ou 2,5% para, depois, criarmos um ritmo de crescimento constante”, explicou.
Para Marques, desde a campanha, o presidente Jair Bolsonaro indicou o afastamento do Estado na economia brasileira. “Ele está tomando as medidas que foram prometidas na campanha e está dando respostas aos eleitores”, ressaltou. O economista acredita que a política mais liberal afeta a camada mais pobre, já que prevê uma menor participação do Estado nas políticas públicas. “O Estado que ajuda as pessoas mais pobres vai diminuir essa ação, então, isso deve afetar essas pessoas”, disse. (AR e MEC)