Título: Palestinos ampliam trégua
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 18/03/2005, Internacional, p. A10
Abbas sai fortalecido de encontro no Egito e período de calma pode durar até o fim do ano
CAIRO - Grupos militantes palestinos concordaram ontem em ampliar o período de calma que vigora desde fevereiro na região, medida que foi vista pelo primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, como um ''primeiro passo positivo'' dentro dos esforços para se alcançar a paz.
Os militantes, no entanto, disseram que Israel deve atender algumas exigências, como libertar prisioneiros e se retirar de cidades da Cisjordânia. Em contrapartida, Sharon afirmou que os grupos têm de se desarmar.
O premier foi informado, por telefone, do resultado do encontro pelo presidente egípcio, Hosni Mubarak, que destacou acreditar que mais progressos podem ser feitos.
Os acordo, firmado após 48 horas de conversações no Egito, fortalece o presidente palestino Mahmoud Abbas, num momento em que tenta reviver o diálogo para a criação de um Estado palestino independente, destacam especialistas. Se a trégua perdurar, o governo israelense poderá mais facilmente implementar o plano de evacuação de suas tropas de Gaza, mas por outro lado também estará suscetível a mais pressão internacional para que promova outros gestos.
O anúncio da ampliação do período de calma foi feito por meio de uma declaração conjunta, assinada pelos 13 grupos. O pacto segue o que foi firmado por Abbas e Sharon em um encontro, também no Egito, em 8 de fevereiro, como parte de seus programas para 2005.
O documento não cita uma data limite para a trégua, mas Khaled Meshal, líder do Hamas, destacou que poderá acabar antes do fim do ano se os israelenses não retribuírem o gesto.
- A calma depende do comprometimento do inimigo às condições impostas e às exigências palestinas - frisou.
Tanto o Hamas quanto a Jihad Islâmica, o segundo maior grupo militante palestino, vinham seguindo o cessar-fogo desde fevereiro, mas ontem voltaram a rejeitar apoiá-lo de maneira formal.
''Os participantes concordam com um programa para o ano de 2005 baseado na manutenção do atual clima de calmaria em troca do comprometimento de Israel em interromper todas as formas de agressão contra nossa terra e povo, onde quer que esteja, e a libertação de todos os prisioneiros'', aponta a declaração final.
A referência ao ano de 2005 foi inserida no último minuto, atendendo a um pedido dos militantes.
Por outro lado, Sharon considerou o acordo ''provisório'' e disse que progressos no processo de paz dependem do desarmamento dos militantes, um passo que Abbas vem relutando tomar, temendo conflitos e guerra civil.
- As organizações terroristas não podem continuar a existir como grupos armados, nem, certamente, como organizações terroristas - disse Sharon.
- Precisamos de vários meses e talvez de até o fim do ano para chegarmos à situação em que estávamos em 28 de setembro de 2000 - comentou Ahmed Aboul Gheit, ministro de Relações Exteriores egípcio, patrocinador do encontro.
A data marca o início da Intifada palestina contra a ocupação israelense. Desde então, mais de 4 mil pessoas, a maioria delas palestinas, foram mortas.
Depois do encontro, Jibril Rajoub, assessor de Abbas, fez um apelo à comunidade internacional.
- Declaramos hoje [ontem]um cessar-fogo total e agora pedimos que pressionem Israel para que siga seus compromissos.
Em um gesto de confiança na retomada do processo de paz, o Egito reenviou ontem seu embaixador para Israel, que havia deixado o país há quatro anos.
No mesmo dia, a imprensa local denunciou que o Exército israelense planeja restringir duramente o acesso da mídia à Faixa de Gaza durante a retirada dos milhares de colonos judeus, em julho.
Os assentamentos serão declarados zonas militares fechadas e os jornalistas só poderão entrar escoltados por soldados. Aparentemente, será permitido se mover apenas dentro de um assentamento, mas não de um a outro.
Apesar das críticas, o Exército nega que com isso pretenda impedir a divulgação de notícias relacionadas a protestos de colonos durante a retirada.
- Eles podem colocar uma identificação em quem entra, mas não podem ditar aonde vamos - reclamou o comentarista Alon Ben-David, do Canal 10 de TV.
O governo israelense planeja retirar 8 mil colonos judeus de Gaza e também as forças militares que os protegem durante um período de quatro semanas, que começará no dia 20 de julho.