Correio Braziliense, n. 20617, 03/11/2019. Política, p. 4

Entre a crise e o isolamento
Luiz Calcagno
Ingrid Soares


Passadas as polêmicas da última semana, Jair Bolsonaro precisa dar uma solução para o racha no PSL. Sob pena de, prolongada a crise que divide deputados e senadores entre os fiéis à legenda e o grupo bolsonarista, ver-se ainda mais isolado no Congresso Nacional. No momento, a indefinição no PSL deixa o presidente dependente do DEM e do MDB.

No caso do DEM, até o momento, é a disposição do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), de tocar realpolitik, que garante a tramitação das pautas econômica de consenso e impede derrotas sucessivas ao governo. Já o MDB  acumula a liderança do governo no Senado e no Congresso.

Mas a crise do PSL parece longe do fim. O presidente da legenda, Luciano Bivar, e seus correligionários lutam para minar o poder político dos filhos do chefe do Executivo. Há, ainda, um processo para expulsar o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o que abriria caminho para o grupo recuperar a liderança da agremiação na Câmara. Um dos vice-líderes da legenda, Bibo Nunes (RS), tem defendido Eduardo no caso da declaração sobre um novo AI 5, mas afirma que a opinião oficial do partido é de repúdio a qualquer manifestação antidemocrática que considere a reedição de atos autoritários.

Para ele, embora não tenha base formada no Congresso, Bolsonaro ainda conta com maioria no partido, o que lhe daria certa comodidade no plenário. “O presidente tem com ele a maioria absoluta. Dos 53 parlamentares, o presidente tem apoio de, no mínimo, 50, independente de ala. Acredito que os mais rebeldes sejam Joice (Hasselman), Bivar (Luciano), e o ex-líder (Delegado) Waldir. Mas acredito que até eles votem com o presidente. Eles deixam os nossos problemas de lado”, garantiu. Sobre as lideranças do MDB e a dependência dos presidentes da Câmara e do Congresso, Bibo minimizou. “É uma opção do presidente. Se ele fez isso, tem motivo”, afirmou. Acredito que ele deveria abrir mais o leque para outros partidos. Seria interessante”, disse.

Faltou combinar

Da ala do presidente do partido, Luciano Bivar, Júnior Bozzella (SP) pensa diferente. Para ele, em um cenário pessimista, é possível que Bolsonaro perdesse até 24 votos no PSL, embora afirme não acreditar que isso possa ocorrer. Para ele, Bolsonaro não tem apoio automático em  nenhum partido. “Nem dentro do PSL, que nunca foi alienado. O que você tem é um grupo mais extremista, que se uniu agora (ao partido), que acaba se curvando e sendo mais submisso, se envolvendo nessas brigas de narrativas”, diz.

Bozzella coloca o PSL na mesma posição dos demais partidos na Câmara. “Para efeito de votação, esse grupo que se rendeu (a Bolsonaro) deve ter um apoio mais cego. A ala mais equilibrada, independente e responsável, que não flerta com o autoritarismo e respeita as bandeiras da liberdade econômica e da democracia, não se curva, não se ajoelha. Apoia o governo no que é de interesse e convergente com a população. Tudo o que o governo conseguiu avançar (na Casa) se deve a essa maturidade. O Executivo não tem uma relação com a Câmara. Não facilita. Não respeita as instituições”, critica. “Mas, jamais vamos fazer oposição ao povo brasileiro”, emenda.

Sobre a relação de Bolsonaro com o DEM e com o MDB, Bozzella ele vê incoerência com o discurso de campanha. “A partir do momento em que o governo tropeça nas próprias pernas gerando uma crise a cada instante, acaba tendo de se render àquilo que condenava. Não digo se é certo ou errado, mas está remando contra a maré no que disse que ia fazer. Acaba ficando em uma sinuca de bico”, provoca.

Líderes de outros partidos na Câmara evitam falar do que acontece no PSL, mas confirmam o isolamento de Bolsonaro. Sem querer ser identificado, um parlamentar da oposição afirmou que chegou a ser procurado por um pesselista da ala de Bivar. O parlamentar tinha interesse em fazer denúncias contra adversários. Articulador do centro, o líder do PL, Wellington Roberto (PB), avalia que a usina de crises do Executivo o distancia dos aliados. “A questão interna do PSL cabe aos líderes e ao presidente do partido. Agora, a situação do governo na questão de apoio fica mais difícil a cada dia. Não tem avanço”, ressalta.

O líder insiste que o discurso de “velha política” está superado. “Somos partidos do centro. Não somos de oposição. O MDB, o DEM e o PP. Isso de velha e nova política está superado. Segundo ele, a quantidade de vezes que o Executivo desmarca compromissos com parlamentares também é algo que complica.